Sofrer ou sorrir?

14 Jan

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Já dizia a minha mãe “De pensar morreu o burro”, mas por ser burra, inclusive, eu nunca dei ouvidos e continuei pensando muito, sobre tudo, a toda hora, sem descanso pra cabeça que maquina planos mirabolantes para coisas que a vida muito provavelmente nem vai me pedir uma posição a respeito.

Você é tão diferente de mim. Se faz chuva, se faz sol, se há seca, ou fome, ou vontade não saciada, não importa, nada parece atrapalhar a sua serenidade, o seu contentamento com a vida, a sua alegria tão sincera que chega a ser irritante, incompreensível. Mais incompreensível, inclusive, é a felicidade que eu sinto, só por saber que você é tão feliz, e a tristeza que me dá quando, sem perceber, eu esfrego a minha tristeza no seu sorriso, e ele fica sem aparecer por alguns dias e nossas escuridões finalmente se encontram, sinuosas e assustadoramente simétricas.

Eu fico aqui mentindo pra mim mesma, mentindo pra você, te dizendo que a sua felicidade simples faz de você alguém desinteressante, bobo. Fico aqui falando a toda hora, me fazendo ser tão importante, falo tanto das minhas qualidades nessa tentativa vencida de justificar a minha falta de amor pelas coisas, a minha intensa dor  que me consome desde o dia que eu pude entender o que é dor, esse oco dentro do meu peito que não me deixa completar a minha existência porque eu tenho tanta sede de controlar tudo, tanta vontade de perfeição, tanta mania de nunca estar assim como você, simplesmente satisfeito por estar aqui.

Mas a minha absoluta certeza de mim mesma é mentira, não me dê ouvidos, não se engane.

Os criativos esquizofrênicos da nossa geração fizeram porque fizeram e o resultado está aí, a ansiedade foi mesmo glamurizada. Woody Allen venceu.

E foi quando eu vi que a vida era feita de escolhas, que percebi quais eram as minhas: Ser fútil ou intelectual? Marombada ou anoréxica? De direita ou de esquerda? Ser vegan ou ser blogueira de moda? Yogui ou hard core? Fazer meditação ou alimentar a gastrite com ódio, vinganças e frituras deliciosas? Ser classe média com orgulho (“Born and raised, yo”) ou defender o comunismo maciço que dorme sereno na parte mais espaçosa do meu coração?

Pra todos os meus dilemas sempre existiu uma única resposta constante: decidi ser ansiosa. Decidi pensar sobre tudo o tempo inteiro, mudar de idéia como mudam as estações do ano num mesmo dia em São Paulo, decidi que não importa o quanto eu sofra no processo, o intuito dessa vida não é ser feliz porra nenhuma, mas sim entender porque cazzo é que fomos colocados nessa bola azul tão bonita, e fomos dados todas as ferramentas para sobrevivermos em harmonia e, mesmo assim, vivemos em descontentamento, vazios, em guerra, em desarmonia, ansiosamente buscando por respostas pra perguntas que fomos nós mesmos – os gênios – que inventaram.

Você me inspira, e eu tenho vergonha de admitir que talvez eu não seja assim, tão complexa como o meu ego gostaria que eu fosse e que, pela primeira vez na minha vida, alguma coisa realmente faz sentido.

E a sua simplicidade é a maior beleza que meus olhos já viram neste planeta; ela é mais mágica do que adormecer ao sol morno deitada na areia fofa da minha praia preferida, e é mais real do que todas as minhas tentativas de explicar em palavras qualquer uma das minhas quatrocentas mil emoções que eu sinto repetidamente todos os dias da minha vida, desde que eu nasci.

Você é real. Sua vida é real. Seus problemas são reais. Sua existência é real. E você é feliz, e pronto.

E você me diz todas as noites baixinho, “Só quem precisa te aceitar é você.”, e eu fico pensando em como eu trocaria todas as minhas glamurosas esquizofrenias só pra ser um pouco mais parecida com você, assim, simplesmente feliz.

Enquanto eu tento preencher os buracos da minha alma com toda essa baboseira, com toda essa literatura, com todo esse cinema europeu e todas essas pessoas que são assim, tão loucas, ansiosas, irônicas e depressivas como eu, você está aí, sempre sorrindo.

Eu passo todo o meu tempo julgando a sua serenidade, tão preocupada com os porquês, e a vida continua passando por mim. E a ironia maior de todas é que a burra aqui fui sempre eu mesma. Mesmo.

Rani Ghazzaoui

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Não era dele

30 Oct

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Antes dele, ela existia. Existia diferente, existia mais doce. Ele foi embora há tanto tempo que seu rosto já não tinha mais formato, sua voz não lembrava mais nenhum som e sua verdade já não fazia parte nenhuma da vida dela. Ela se libertou daquilo tudo, daquele passado, se libertou dele. Depois de anos, depois de tanta coisa errada que deixou que ele fizesse com ela. Mas mesmo assim, mesmo sendo póstumo, mesmo sendo indolor há tanto tempo, mesmo sendo, inclusive, extremamente desimportante agora, o coração dela mudou inteiro por dentro, ficou mais escuro, mais amargo e mais sujo por conta da falta de amor que ela sentiu por todos os anos que precisava ter sido amada por ele.

No fundo ela sabia que, à essa altura, já não era nem mais justo colocar toda a culpa nele. Os anos passaram e a memória dele sumiu, o que sobrou foi o fantasma que agora vive dentro dela, o fantasma que se alimenta das suas inseguranças plantadas e faz com que ela guarde com todos os dedos, e unhas e venenos seus sentimentos pra que ninguém possa mais uma vez usá-los contra ela. Os resquícios ficaram não porque ele ainda fazia parte dela, eles estavam ali porque, é verdade, ela mudou pra sempre.

E toda vez que ela tentava se lembrar de como era enxergar o mundo com olhos mais infantis – aqueles que esperam tudo do mundo, tudo das coisas, tudo de qualquer pessoa porque, de verdade, acreditam no bem – ela já não conseguia; era impossível não jogar a culpa diretamente pra ele, o grande monstro dentro do seu armário chamado passado, impossível não torcer o seu nome dentro da boca, porque tinha jurado nunca mais o repetir, prometido a si mesma que nunca mais daria a ele o prazer de fazer parte da vida dela, dos seus pensamentos, do seu amor e nem da sua raiva. A única grande certeza é que dela ele já não merecia mais nada, nunca.

Todo dia então ela olhava seu rosto mais velho no espelho. Examinava cada linha, cada traço, cada resquício de familiaridade, de lembrança, de reconciliação do seu gesto com seu sentir. Fisicamente quase nada mudou de lá pra cá, sua genética tinha sempre sido delicada com ela, desde pequena, e os anos iam se empilhando levemente em seu rosto que ainda tinha, fisicamente, a capacidade de se contorcer à cada emoção. Mas quando ela olhava fundo, se sentia como se não houvesse ninguém em casa, parecia que, há tempos, tivesse fugido de si mesma e na frente daquele espelho só ficou a carcaça, aquele corpo vazio que imita uma vida que um dia ela tinha sonhado ter.

Amores vieram depois dele, mas ela nunca conseguiu senti-los. Não de verdade, não como se deve.

Toda vez que ela tinha um pesadelo era o rosto dele, roubando dela tudo o que ela sempre supôs ser seu. E a cada relacionamento que ela começava, tentando cantar o mantra de mentiras em sua cabeça de que, dessa vez daria certo, outra parte do seu coração apodrecia, virava enxofre, fedia.

Ela passou tantos anos de sua vida colocando todas as forças do seu amor num amor errado, tantos anos desejando ser amada como ela amava, ser completa junto, entendida, paparicada, desafiada, desafinada, enlouquecida, preenchida e louca de amor, de tesão, de paixão. Mas a paixão que ela viveu, aquele amor que hoje ela conta como sendo o divisor de águas da sua vida emocional, só aconteceu na cabeça dela. E agora quando ela tenta fingir acreditar que está se dando outra chance, ela sabe bem lá no fundo, que toda vez que ela entra agora, ela já entra carregando a derrota, ela passou a se sentir tão mal por si mesma que, antes de tentar acreditar, ela já desistiu.

Ele poderia ser qualquer um. Na verdade, ele foi mesmo qualquer um, um amor barato, bandido, esquecido na quinquilharia que vira aquele espaço do cérebro onde ex namorados, ex amigos e ex chefes se misturam nas mesmas gavetas, empoeirados. O problema dela era guardar tudo, guardar por tanto tempo. O problema era analisar com a lupa tentando achar a solução de um problema que na verdade eram muitos e a resposta era simples.

E ainda que ela encontrasse um amor que desse a ela todas as coisas com as quais ela sempre sonhou, sua vida seria triste. Não porque aquele cara, o mané, não soube a amar direito, mas porque não merece felicidade quem dá de presente a outra pessoa a sua habilidade de se fazer feliz. Ela achava que ela só existia antes dele, mas o que existiu antes, de verdade, foi um grande vazio que precisava ser ocupado por alguém para levar a culpa por ela nunca ter conseguido se amar, se aceitar, se moldar em qualquer formato que ela decidisse precisar ser.

E um dia quem sabe o amor poderia sim ser o líquido que preencheria tudo, mas só quando a jorrada viesse de dentro dela.

Rani Ghazzaoui

Não existe amor na Escócia

7 Oct

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Resolvi curar a minha doença com o único remédio que eu sei usar. Porque a ansiedade de um começo pra uma vida que já começou não me deixa dormir, sorrir ou respirar direito desde que me dei conta que, enquanto eu perco tempo imaginando como minha vida vai ser ótima amanhã, a minha vida hoje vai passando sem volta, sem que eu nem perceba que ela está indo embora pela janela que eu mantive aberta, pra ver a verdade alheia e esquecer a importância da minha. Todo mundo por aí tem uma receita pra ansiedade, todo mundo acha que sabe o que é melhor pro outro apesar de nunca conseguir resolver o quebra cabeça que lhe pertence; desatar nó dos outros parece sempre mais fácil já que nunca é feito mesmo por nossas mãos.

Lá fora faz frio, lá fora faz meses que só chove, que só é cinza, que só é fosco, só é sujo. Meu cérebro tenta acompanhar e fica escuro também, analisando com toda nota tétrica dentro de mim as situações corriqueiras, me fazendo enxergar tudo como um sinal de que a vida é uma merda bem grande, e fedida, e chuvosa num dia frio nesse lado monótono do mundo.

O estômago vai virando e dando nós, tentando digerir (como se fosse um hambúrguer bem gorduroso, daqueles que só o cheiro ataca a gastrite) as emoções sem nome que nem os melhores psicanalistas do mundo conseguiram nomear. O coração tenta parelhar com a respiração – que é breve e pouca – e começa a bater desenfreado, como o carro chefe da escola de samba, que mostra quem manda naquela porra. Se você não controlar o seu estômago, que controla sua respiração, seu coração vai bater e bater e bater sem parar, até você entender que você está vivo, muito vivo e que ser assim tão sentimental só vai servir pra te matar aos pouquinhos, principalmente nesse lado tão gelado do mundo.

Sabe aquela história de que quando o escritor anda feliz ele não consegue escrever? Às vezes quando ele está muito triste, ou descompassado, ou perdido na nuvem negra que vira de vez em quando a cabeça dos criativos, ele também não consegue já que o papel – para ele – é a final confirmação da idéia. Uma vez que está escrito, já era, existe mesmo, é de verdade. E muitas vezes é mais fácil se juntar ao time dos que escondem seus demônios – do mundo e de si mesmos -, muitas vezes é mais atrativo ser só mais uma cara feliz na rede social, mais um coxinha do Twitter.

A gente vai vivendo a nossa vida e vai deixando que ela nos mostre coisas sobre nós que nunca teríamos percebido sozinhos. Você só descobre o quanto gosta de praia quando vive na neve, só sabe que felicidade está nas pequenas coisas quando as pequenas coisas que você tinha agora já não mais são, só dá valor pro amor, pra amizade e para a família quando cada um deles está em um canto do mundo, e você sabe que nunca mais vai ter concentrado no mesmo fuso horário deste mundo os três outra vez.

Quando me mudei do Brasil, há 6 anos atrás, eu sentia falta da minha família, da comida de casa, dos meus amigos. Com os anos, aprendi a cozinhar, fiz outros amigos e usei a benção que é a internet para manter o contato com a família e os poucos amigos insubstituíveis. Quando eu me mudei eu sentia saudade do externo, do que não me pertencia, do que me completava. Mas hoje, sentada diante da paisagem pitoresca que só uma árvore imóvel, amarelada e com suas folhas ameaçando a cair pode te presentear, a minha solidão é imensa já que nela cabe a maior saudade do mundo, a minha saudade de mim.

Morando na Escócia descobri que comida, amigos, família, música, cultura e todas as outras coisas que eu achava fazerem de mim quem eu sou, são – mesmo que à distância – ajustáveis, fazíveis. Distância é um treco muito louco, mas com certeza te une aos que te amam e te afasta dos que não valiam tanto à pena; ela só agiliza o processo infalível que a vida tem para todos os relacionamentos: ou fica pra sempre, ou vira passado. Mas o sol, só o sol e nada mais, ele sim se provou ser a única coisa que não consigo, não posso e não quero viver sem. Pela primeira vez na vida entendi o motivo daquele exagero, “o astro rei”. Sol te dá cor, te dá energia, te dá calor. Uma vida sem sol é uma vida escura, fria, abandonada.

Meu tempo por aqui ainda não acabou, na verdade não sei quando acaba. O que sei é que no escuro é que decidimos a nossa vida, já que nada nesse mundo é certeza. Pode ser que eu vá amanhã, e pode ser que eu fique por mais algum tempo trabalhando o que é morar dentro de mim sem nenhum desconto da natureza, do cheiro de mar morno e do bem estar geral que só uma noite de verão pode te dar. Pode ser até que meu desgosto generalizado seja fase e que, no dia que eu for embora, eu até sinta saudade do rosto duro, do humor escuro e da chuva sempre à beira de desabar, como as folhas das árvores escocesas no outono.

Queria poder dizer que, quando eu for embora, agradeceria a hospitalidade e apagaria a luz ao sair, mas esta ilha tão fria, cheia de pessoas programadas para não olhar pela janela, nasceu e vai morrer no escuro.

A minha ansiedade é pela claridade.

Rani Ghazzaoui

*photo also by Rani Ghazzaoui, all rights reserved

Emoção Unissex

26 Jul

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Ela apareceu na minha vida pra que eu acreditasse que o que veio antes era só um presságio de felicidade. Eu lutei contra o que sentia por ela porque me fizeram acreditar que de bom eu não merecia nada. Agora está tudo turvo de novo.

A minha loucura tão sempre lembrada por ela em qualquer oportunidade me faz pensar que a culpa da eterna não felicidade é minha, que a minha vida nunca vai andar por linhas comuns, calmas, não febris. Me faz acreditar que felicidade e tranquilidade não ocupam a mesma caixa dentro de mim.

Mas vai ver é isso mesmo, eu não sou comum. Ela diz que eu falo alto, muito alto pras normas de etiqueta que eu não poderia dar menos importância para – tão diferente dela. Mas a verdade é que a minha frustração grita muito mais alto que o conformismo que eu vivo tentando, mas não consigo. Todo mundo acha que ela é tão boazinha, e eu tenho um problema muito sério: eu não consigo não dividir tudo o que eu sinto e penso com a pessoa com quem resolvi dividir a vida. Acaba que, como sempre, ela sabe muito mais de mim do eu dela, e a minha auto-desvantagem faz com que a minha vulnerabilidade seja usada quase que inevitavelmente contra mim.

Ela sempre fala de controle. Fala como se, na vida, qualquer situação ou emoção pudessem mesmo ser controladas. Ela fala em “levar” as coisas, em aceitar o mundo e as pessoas como elas são, em não perseguir mudanças e vitórias. Fala desse jeito que me deixa tão confuso, e me deixa com raiva de que alguém como ela me faça me questionar o mundo.

Minha pergunta agora é para o meu eu do passado, que achou que seria suficiente pra mim uma vida de conformidade. Eu, que sempre vivi de ser inconformado.

Meu cérebro dói. Doem minhas mãos, os meus braços, meus olhos, minhas pernas, doem os meus pés. Os dela parecem não sentir nada enquanto pisam de salto em tudo o que sobrou de mim nesse chão. A coisa mais louca de uma loucura é dia após dia tentar convencer à si mesmo que uma relação falida, da noite pro dia, vai se salvar.

– Ele te disse tudo isso?

– O lance é estar ou não na fase da vida onde você está, de verdade, pronta pra dividir a sua com alguém. A gente cresceu numa sociedade onde mulher teve que provar tanta coisa pra ser igual aos homens, que de uma certa maneira, a gente ficou igual à eles. Egoísta emocionalmente e com medo de uma relação monótona porque, pela primeira vez na vida, mulheres têm um certo direito à variedade sexual sem discriminação. Talvez agora a gente entenda porquê homens traem. Porque sim, quando você pode, tem tanta tentação por aí. Mas é aquilo lá de novo, a sedução dura algumas semanas, e só dura isso também o frio na barriga. Amor não, amor é diferente. Lembra da música da Rita Lee?

– Não. Acho Rita Lee muito amor livre pro meu gosto.

– E eu acho que você tem que decidir qual é o tipo de amor que você gosta.

Todo mundo sofre, independente do gênero. Todo mundo pode ser um grande filho da puta, independente também, do sexo que carrega no meio das pernas. As pessoas teimam, cismam, forçam amores que são só delas, mas que elas preferem acreditar dividir com aquela pessoa com quem estão, temporariamente, dividindo fluidos numa cama.

A gente passa a vida atrás do amor, procurando tão cegamente que, muitas vezes não percebe que perder anos ao lado de alguém que não nos ama de volta, só tirou esses anos da conta de alguém que poderia ter amado. Não tem jogo dos sexos; inteligência emocional (ou falta de) é meramente humano.

Rani Ghazzaoui

Maratona

19 Mar

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Será que a gente nunca cresce? Que os medos e inseguranças que guardamos melhor escondidos do mundo inteiro, não importa quantos anos se tenha, permanecem ali, no fundo da nossa alma, bem guardados e, ainda sempre, existentes?

Você sorri mas seu sorriso é falso, eu sei identificar. Sua boca encontra os ângulos apropriados, seus dentes mordem a vontade, a ânsia, o desespero, a solidão e a amargura, e você continua sorrindo como se a vida sempre sorrisse de volta pra você. Amor é a palavra que assombra, amor é o medo de ter e perder e o medo de não ter e jamais encontrar, amor é sempre busca de sabe-se lá o quê, amor é tão mistificado, tão surreal, tão pra sempre esperado que quem espera jamais consegue sorrir completo já que, sem amor, nenhum sorriso pode mesmo ser feliz.

Ela caiu no chão, suas lágrimas correndo pelas bochechas, o pescoço, a nuca. Caiu e ali ficou esperando a resposta do universo, esperando ouvir um sussurro de compaixão do mundo pra tentar entender como pensa tanto uma cabeça que nem tem motivo pra pensar em nada. Caiu e a queda foi amortecida por todas as outras; agora era tão frequente cair. Olhava em volta de si, lágrimas, lenços de papel, mau amor escorrido pelo chão. Suas lutas pareciam sempre infinitas, não porque ela jamais tivera chegado ao seu objetivo, mas porque como qualquer pessoa compulsiva, ela não conseguia parar de ser triste, mesmo quando ela estava feliz.

Ninguém tem piedade de quem não sente amor por si próprio, mas ela sorria e todo mundo achava que ela era feliz, ninguém tem dó de gente feliz. Ninguém, de um jeito ou de outro, teria dó ou entenderia a dor dela, ninguém jamais entendeu.

Pensava que nascera com alguma disfunção, alguma anomalia jamais encontrada na ciência que a impedisse de abraçar com os dois braços o momento em que a risada de verdade estava acontecendo. Não era depressão ou falta de endorfina, era a eterna mania de querer agarrar tudo muito maior do que em seus braços cabia. Era o desespero por sempre conseguir mais daquilo que a fazia feliz; um pouco apenas jamais seria o suficiente e ela nunca se saciaria já que pra sempre ela passava seus dias apenas querendo mais do que já tinha.

Em algum lugar do mundo – pensava – a solidão deve doer menos, o amor deve ser mais real e a felicidade muito mais plena. Viajou o mundo sem fincar vínculos porque nenhum lugar por onde ela passou conseguiu passar no teste de lugar perfeito para ser feliz. Ou as pessoas eram muito frias, ou muito dadas, ou eram muito ignorantes, ou muito livres, ou o tempo era frio demais ou o calor era de matar. Seguia em frente, estrada a diante, seguia olhando pra todo mundo, à princípio, com olhos de quem queria tudo, de quem podia tudo, sentia tesão por todo mundo pela primeira vez que os via. Mas a obsessão pelo começo, pela faísca, acabava com as chances que ela tinha de eternidade, só que ela nem via. Continuava andando, olhando, buscando por coisas que existiam em sua imaginação que, obviamente, sempre foi maior do que a sinceridade que podia lhe dar a realidade.

Todo mundo olhava pra ela com uma ponta de inveja. Livre. Viajava o mundo, falava muitas línguas, tinha tido todas as cores de cabelos, vestidos e amores possíveis. Cidadã do mundo, dona de si.

Ela deitava em seu chão – onde quer que ele fosse daquela vez – , e se enrolava feito caracol. Um dia iria achar o tom perfeito, a roupa perfeita, o amor perfeito. Um dia iria achar o lugar do mundo, o perfeito, e aí sim iria parar, perfeita, e se prender.

Solidão dói menos pra quem está sempre correndo.

Rani Ghazzaoui

Sobre a genialidade versus a felicidade. E o sorriso escondido do Facebook.

9 Jan

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Porque a minha cabeça sabe funcionar melhor à noite. Depois do dia, depois de ter visto tudo e inspecionado todos de perto com meus olhos de lupa, magnificando o que pra todos os outros olhares pode ser tão pequeno. Pra mim tudo tem importância. A vida importa demais.

E gente. Adoro ver gente, e odeio ver gente. Adoro ser e odeio ser. Porque a minha cabeça bagunçada enxerga razão nas coisas mais absurdas e fica pensando que se minha razão é distorcida eu, então, não faço parte desse mundo de razões retilíneas, pelo menos não completamente. Porque eu gosto mesmo de gente incompleta. Daquelas que precisam de muita cor, dor, música, poesia e amor pra mais ou menos se inteirar. A vida não é completa, mas é inteira.

Mais um ano começa e com ele as esperanças de todo mundo que vive nele. Esperança de verdade, de sentimento e sensação de verdade. Vontade daquele beijo que nunca deram, da viagem que nunca fizeram, do amor que nunca viveram. Mas vontade não passa só de ter. E sentados na frente da tela que separa quem são de quem eles gostariam de ser, as pessoas da minha geração deixam as vontades serem mortas pela foto alheia, juntando recordações que não são suas. A pessoa da foto sorri, mas três segundos antes daquela foto ser tirada, com Noronha ao fundo, ela se sentiu infeliz. Todo mundo quer ser quem não é porque abraçar quem se é, de verdade, é um abraço cheio de espinhos. Espinhos internos. E dói.

Mas eu olho em volta. Uns tem fé em Deus, outros têm fé na bolsa cara que carregam, outros, fé na espiritualidade do desapego que acreditam ter. Toda fé é cega, mas todos precisam da sua. Ela é famosa porque transou e gravou e vendeu, mas aposto que não gozou. Ele é famoso porque cantou o hino de Deus, porque musicalizou a bíblia e porque mostrou que padre pode ser descolado. Aposto que enquanto o sucesso sobe à cabeça, nem rezar ele não reza. O ser humano é egoísta. E narcisista. Vaidoso que só ele.

Mas eu olho em volta. Não é só ruim, eu sempre acabo pensando. Como a menina que eu vi na reportagem da Vogue: largou tudo nos Estados Unidos e foi viver a vida de verdade no Quênia. Mas aquela vida nem era dela. Ela não se importou, porque se importar com o que estava errado era, pra ela, mais importante do que celebrar 4 de Julho e ter mais de 500 canais de TV à cabo. Ou daquela velhinha italiana que, um dia quando eu fui esquecida por umas duas horas na maca de um hospital público em Sidney, deixou a sua própria filha sozinha pra assegurar que a ‘bambina’ aqui fosse atendida logo porque eu estava passando muito mal. Ela falava e eu pensava ‘É assim mesmo, nonna. Eu passo mal sempre aqui dentro, mas ninguém entende o que eu preciso pra não doer.’

O mundo sorri pra gente o tempo todo. Alguns ignoram porque é mais legal ser triste do que feliz; todos os gênios foram ranzinzas, solteirões ou esquizofrênicos e todo mundo gostaria de enfiar o dedo até o fundo do pote e lamber gostoso a genialidade. Não vêm pra todos, e paga-se o preço, mas aqui no nosso mundo, dando pra ser comprado, está ótimo. Outros sorriem de volta, mas sorriem demais porque, na verdade, não entendem muito do que acontece em volta. Eles compram os DVDs das Kardashian e do Padre Marcelo. Não é nem que estão no mundo a passeio, é que estão pra fazer volume, pra sintetizar a vida, pra fazer que ela seja tri dimensional.

Eu olho tanto, olho tudo. Meus olhos cansam mas não dormem porque quem dorme perde tempo enquanto poderia estar sendo genial. Meus ídolos mudam tanto, não nas suas existências, mas dentro da minha cabeça porque, em algum determinado momento, todo mundo passa a ser idiota pra mim. Eu sou facilmente decepcionável, poderia dizer. Ou vai ver sou muito detalhista, não sei.

Meus olhos incham toda noite, porque toda noite é a mesma coisa. Não consigo dormir, está muito frio, está muito calor, está muito rápido, está muito devagar, está muito moderno, está muito careta, está muito liberal, está muito conservador, está muito claro, está muito escuro, está muito cedo, está muito tarde, está muito tudo, está muito nada. Meus olhos se incham, se apertam, mas nunca descansam. Minha cabeça nunca descansa e eu sinto um pouco de inveja da espiritualista que vive de luz do sol e não depila as pernas, ou do bitolado que põe seu descanso na mão de Jesus, e descansa. Mas o meu Narcizo, ao perceber o ataque da falta de vaidade, sai da casinha correndo e eu não me dou o direito de enfeiar ao mesmo tempo que meu Einstein sai de trás da pilha de livros que eu ainda preciso ler pra me contar que nem o próprio Dostoiévski se aguentava, mas que respeito e genialidade vêm dos outros, daqueles que não sabem, não querem ou não conseguem entender. Meu gênio, como aquele do Wilde, não me deixa deixar de entender nada, nunca.

O ano passou, mais um. Estou aqui acumulando anos de experiências picadas, de sonhos realizados, de espera pelo gozo supremo que você segura, contorce, controla e, quando ele vem, nem foi tão legal assim.

Mas negatividade, pra mim, sempre foi charme, a alma do negócio. Só que tem dias que eu tenho preguiça de ser a minha persona da frente da tela do computador. Preguiça de fingir que tudo me enche o saco, quando às vezes não custa mais do que aquela música, com aquele cheiro pra fazer eu achar o mundo, as flores, os cachorrinhos e os bebês lindos.

2013. Ano ímpar – o que quer que isso queira significar pra numerologia, pra feitiçaria ou praqueles que apenas querem acreditar. Vou fazer cara feia e julgar tudo e todos o tempo todo neste ano, não tenha dúvida. Mas vou assim, escondendo meu sorriso mais feliz do Facebook porque ainda acho que a parte mais feliz da minha realidade não pode ser simplesmente compartilhada assim, tão fácil de ser roubada por ninguém, alguém ou todo mundo. Afinal do outro lado da tela tem de tudo. Tudo mesmo. Desde quem finge saber de arte aos que acham Paulo Coelho gênio, e Deus me livre meu sorriso acabar no rosto de alguém assim.

Ano novo, eu entrei. Estou indo. Mas não me espere, mesmo que eu tropece e faça birra porque as outras trilhões de pessoas do mundo não são exatamente como eu quero que elas sejam, não espere, siga em frente levando tudo e todos, acariciando uns e maltratando outros, sendo justo, injusto, verão e inverno, triste e feliz. Segue, ano, vai com fé e pula pra lá; e pode deixar que eu te alcanço.

Agora, preciso de um cochilo.

Rani Ghazzaoui

Das dores: Maria, a óbvia.

22 Nov

Foi susto. E suspiro. Tudo junto naquela sensação tão conhecida pelos ansiosos, o rosto avermelha, o pescoço fica quente, o coração quase para, congelado, e o estômago produz, revira, faz barulho e dói. Nada na vida é bom quando o estômago dói daquele jeito que o dela doía toda vez que a vida resolvia não concordar com ela nos detalhes. A vida é mesmo cheia deles.

Ela andou até a porta, apoiou a cabeça no batente. Pensou que se ele não voltasse não tinha problema porque, de verdade, nem ela mesmo ali estava. Perdida como cachorro em mudança – se desculpando pelo trocadilho infame – já que humor era só o que restava para ser usado de massa corrida naquele fragmento da vida dela.

‘Sorria’, ele falava baixinho. Os dentes dela rangiam de raiva de não sabia o quê. ‘Seja mais leve’, ‘Não fique tão estressada’, ‘Seja otimista’, ‘Acredite na vida, na sorte, no amor, nas pessoas’. Mas ela não acreditava em nada, nem em credo, e seu ceticismo era claro, alto e doloroso: a vida nunca tinha sido muito fácil pra ela e, por esse exato motivo, aceitar amor incondicional parecia coisa de princesa da Disney, mas ela sempre foi medrosa demais pra montanha russa e ranzinza demais pra fofices como ratinhos vestidos como gentinha. O mundo já tinha muita gentinha como era e ela só pensava em pisar nos ratos e sair correndo.

Mas do lado de lá da relação era tudo diferente. Ele não. Não pra tudo o que pudesse ser negativo, não para o próprio princípio da negação. Não pra tudo o que fosse doloroso, desimportante, desinteressante ou profundo demais que fosse capaz de te deixar pra baixo. Não, pra quem dizia não, pra quem queria ter muita razão, não pra tudo o que causasse complicações e aborrecimentos, e dor. Não pra dor. Pra ele, dor não era necessária pro crescimento, pro amadurecimento, pra nada.

Mas ela era profunda, tinha que ser profunda, e doía sempre, era feita de doer, não sabia ser se não fosse poço fundo de fortes emoções. Ela era a piada do cúmulo da dor, e escorregava no topogã de giletes pra piscina de álcool como atleta olímpico.

E ela sentava ali, enquanto ele passava pela vida de leve, pensando onde foi que a versão masculina da Pollyana do livro decidiu que seria bom se relacionar com a Maria do Bairro. Aquela Maria que sofre, e que chora, e que namora, e que separa, e que chora mais um pouco, e que tem inimigos, e que tem amigos que viram inimigos, e que tapa o sol com a peneira, e sofre mais, e briga com a família, e faz as pazes com os amigos que viraram inimigos, e desfaz as pazes por conta da traição – porque Maria sem traição não seria Maria, assim como não seria Maria sem dor de amor, dor de cotovelo, dor de sabe-se lá o quê – , e sofre mais um pouco, e chora mais um pouco, e sofre tanto que chora mais um tanto e acaba chorando de tanta dor de sofrer as dores que ela mesma causa a si mesma mas que, nem Freud explica porquê, não consegue parar. Ela gosta. Gosta de sofrer, a Maria. Em seu bairro, em seu apartamento, em seu quarto, dentro da sua cabeça bagunçada de mulher à beira de um ataque de nervos do século XXI.

Foi susto. E suspiro. Tudo junto naquela sensação tão conhecida pelos ansiosos, que naquele fragmento de segundo não sabem diferenciar realidade de paranóia, certo de errado, grito de sussurro.

Mas a campainha tocou e ali estava ele, sempre de volta, sempre sorrindo, sempre tão drogado de vida. Ele chegava e o abraço dele era como edredon fofinho numa manhã gelada. Ele sempre voltava mesmo com a mania de abandono dela, com o pessimismo dela, com a vontade insana de chorar a vida porque, na verdade, ela simplesmente nunca se permitiu sorrir. Não inteiro, ela não era inteira, pelo menos não até ele chegar.

E a cada dia que ela passava presa na mentira que ‘é bonito ser triste’, ela esperava –  permitindo a pequena dose de esperança que seu estômago era capaz de digerir – pela chegada dele, toda noite e todo dia que, embora não mudasse por completo quem ela era, a completava e a fazia, meio otimista.

E um dia, ela desejava forte e baixinho pra nenhum cético hipster ouvir e criticar, que todo aquele amargo fosse embora, que toda a raiva, como mágica, acabasse por ali e parasse pra sempre antes que, sem perceber, fosse ela que parasse. Mas desejava tão baixo que, suspeito, queria que nem a sua própria cabeça conseguisse ouvir. A cada vez que pensava em não sofrer nunca mais, o estômago voltava a doer.

Aquela coisa de achar que tristeza é sempre bonito e acabar ficando tristemente feio. E óbvio.

Mas a Maria é louca. E complexa. E obviamente, obviedade, de todas as coisas desse mundo, é a última que Maria vai entender.

Coitada da Maria.

Rani Ghazzaoui