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Imagi-Ana-ria

17 Jun

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Ela me inspira, já tem anos. Quando meu eu lírico se cala, eu a leio então, calada. As palavras dela me tocam, me excitam, me deixam com raiva por não ter sido eu que as escrevi. Ela é linda, esbelta, sorrisão daqui até aqui. Ela tem irmãs que eu nunca tive e desse dom que dividimos parece que ela levou uma metade maior do que a minha. Levou três quartos.

Sempre gostei de nome composto. Gente de nome composto nos meus olhos de menina eram complexidade. Os pais não conseguiram se decider entre um nome ou outro, então deram dois. Aquela pessoa, mesmo sem ter pedido, nasceu com direito de ser duas, de poder duas vezes, de trocar a personalidade quando bem entendesse. Maria, Cláudia, Fernanda, Carolina, Paula, Lúcia, Clara, Júlia. Eram tantas as Anas. Ela era todas.

Tive um amigo que era pintor. As coisas mais lindas ele desenhava. Ele me ensinou sobre a vida, falamos tanto sobre amor, ele me entendia. Um dia, no meio de um papo cabeça que durou a madrugada toda, ele me prometeu pintar minhas palavras com suas tintas, seus muitos pincéis, seu talento. Mas meu amigo também conhecia Ana e ela, como pra mim, era musa dele. E ele só sabia pintar com ela, pra ela, sobre ela. Nem raiva eu tinha. Ela merecia, ela era luz enquanto eu e ele só sabíamos viver de sombra.

Fico imaginando como são as Anas dos meus amigos escritores, músicos, artistas, atores. O que elas comem, como se vestem, sobre o que conversam. Quais livros estão na estante de sua Ana? Onde ela estudou, o que ela gosta de fazer aos Domingos? Sua Ana tem quantos anos, quantas tatuagens, quantos amigos? Você é amigo da sua Ana?

A gente se conheceu por uma amiga em comum. Conversamos por horas, trocamos contos das nossas vidas, trocamos figurinha sobre o que faz de alguém um escritor sensacional, único. Não viramos amigas de infância, nunca mais nos vimos, inclusive. Trocamos endereços de blog e seguimos com as nossas vidas. Ana não é minha amiga, não é minha colega, não é real. Ana virou o ideal de tudo o que eu queria ser na minha cabeça, virou uma memória de todas as coisas que ela foi naquela noite de Outono quinze anos atrás. Ela era profunda e descontraída, eram bem ajustada e estranha, era amiga de todo mundo e ao mesmo tempo ninguém conseguia se aproximar demais dela. Ela era exata.

E eu não sou; nunca fui. Eu sempre fui caos e escuridão, desejo de coisas que ninguém deseja, bagunça, tremedeira, fervor. Eu sempre fui a esfinge que desistiram de decifrar, a equação que não fazia sentido porque eu não sei resolver nada que passe de regra de três.

Ana era a meu oposto, era o meu nome composto. Aderi à Ana como quem gruda no brinquedo novo que ganhou no Natal. Ela me completava e me dava o poder de ser quem eu queria, mas não era. Ela lia todos os livros que empoeiravam na minha estante, sabia de cor declamar as poesias que eu nunca entendi. Escolhia pra ela os amores mais profundos, sentava na varanda lendo jornal no Domingo, discutindo Foucault e cinema mudo. Ana era claridade, eu complexidade.

Hoje de manhã li que Ana estava com frio e pensei em como suas palavras sempre aqueceram a minha vida. E daí fiquei pensando que talvez eu também seja a Ana de alguém, alguém que hoje também sentiu frio e achou abrigo aqui, nessa parte do meu cérebro que não para de falar por um minuto.

Nesse mundo tão cheio de gente que passa, há pessoas que ficam, mesmo quando nunca estiveram. Isso, pra mim, é beleza, é leveza, é literatura.

Obrigada Ana, por ser infinita.

Rani Ghazzaoui

 

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Sobre a humanidade, a similaridade e a falta de vontade.

1 May

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Tudo no mundo muda. O tempo todo, mesmo quando cismamos em viver aquela ilusão que aquece o coração por um tempo (não por muito, mas aquece), de que a vida finalmente parou no “futuro”, naquele momento bom que tanto desejamos chegar, conseguir, conquistar; o futuro justifica todas as dores e desamores do presente, mas a verdade é que o futuro não existe, só o que existe no mundo – como conseguimos conhecê-lo – é o agora. O futuro não importa.

Eu me casei com uma pessoa completamente diferente de mim. Ele acredita na vida, na felicidade e , pasmem, até no ser humano. Não vou mentir, é exaustivo fingir que eu me preocupo tanto com a tranquilidade, e com a normalidade, e com toda a formalidade do mundo quanto ele, ou o quanto ele gostaria que eu me preocupasse. Ele me disse outro dia: “Ser como você é, é estar em guerra com o mundo e com si mesmo constantemente”. E, embora eu saiba que o comentário, pra ele, foi negativo, pra mim foi um adjetivo positivo. Adjetive-me de mutação e eu vou gritar o hino de Raul como se não houvesse amanhã, inclusive, porque como já disse antes, o amanhã não existe.

Se estou cansada? Sim, sempre. Uma cabeça barulhenta tira da vida de uma pessoa muitas coisas que eu acredito serem importantes. Gente conformada ou conformista nunca sofre de ansiedade. Ansiedade é a doença dos criativos, dos desinibidos, dos causadores de causo, dos loucos. Mas acontece que há anos eu desisti de buscar sanidade porque, pra mim, linearidade é tão apetitosa quanto um sanduíche de cocô. Equilíbrio ajuda a respirar, mas não enxergar o barulho à sua volta faz com que a sua existência como ser pensante seja diminuída à quase nada. E se era pra ser árvore, pra que então estou aqui lidando com gente que não sabe a diferença entre religião e alienação? De opinião e de imposição? De homossexualidade e escolha? De guerra e de realidade? Pra que, meu Deus, se nasci pra ser planta e fazer fotossíntese, estou eu aqui, correndo na esteira dessa vida pra queimar a única coisa que realmente é prazeroza nesse cazzo (chocolate, claro), e passando cremes caros nas rugas que tentamos esconder porque a nossa sociedade acha sabedoria desimportante, mas se sua bunda for dura com cinquenta anos você venceu na vida?

Se estou cansada? É claro que estou cansada, porra, viver no meio de gente alienada, tapada, chata e que passa a vida planejando o casamento perfeito e a casa de cerquinhas brancas com o namoradinho de colégio é mais boçalidade do que o meu cérebro concordou em aguentar pra viver em sociedade. E a nossa, eu te conto, tá falida.

Às vezes a ansiedade não te deixa respirar direito, ou comer direito, ou dormir direito, ou transar direito ou ser você direito, e são nessas horas que eu gostaria do fundo da minha alma escura conseguir sentar a minha bunda cansada no meu tapetinho de yoga e meditar por cinco minutos que fossem. Meditar é privilégio de quem descobriu onde apertar o botão do foda-se até o fundo, e o meu emperra no meio, sempre tem alguma coisa que me fode antes de eu conseguir ligar o foda-se pra ela primeiro.

Eu, que nasci escandalosa e eloquente, eu, que fui sempre a criança que achava idiota conversar com outras crianças, eu, que era a adolescente que achava que beber era idiota e querer ficar loucão era idiota e querer ser igual à todos os seus amigos para ser popular era idiota, eu, que não entendo gente que só funciona em grupos, essa disformidade que é se justificar como indivíduo somente quando há um coletivo que te explique, eu, sozinha, me vejo colocada nessa prisão moral que é viver num país que parou no tempo. E toda manhã enquanto eu tomo meu café, tenho que ver fotos grotescas de uma realeza ativa em pleno século 21 estampadas no meu jornal. A plebe assiste encantada e muda, as bocas cheias de salsicha, e bacon, e conformidade. Eu não quero me conformar, porque no dia em que eu acreditar que isso é tudo, que a vida é isso aqui, que não tem mais nada pra contestar, pra reclamar, pra discordar, nesse dia cinza com nuvens britânicas, nesse dia frio com ventos do mar do Norte, nesse dia chato com humor amargo de quem nasceu na terra que a natureza abençoou com o seu dia de prisão de ventre, esse vai ser o exato dia em que vocês poderão anunciar, eu morri.

Tudo no mundo muda, eu disse lá no começo. O problema não é o mundo, porque ele gira, e na natureza, na bioenergia, na filosofia e no espiritualismo tudo está em constante mudança. Nada fica estático. A porra do problema é a antropologia. É o ser humano que só consegue aguentar essa vida de incertezas quando finge que está no controle, que tem um plano, que sabe o que está fazendo. A gente não sabe de nada, nem da metade do nada a gente sabe.

Eu que nasci com preguiça de todo mundo, percebo que a cada ano que passa só fica pior. Vocês, seres humanos enquadrados, não me convém, não me apetecem, não me entretém. A vida tá tão chata que até pra amar outra pessoa tem burocracia: se vocês partilham do mesmo tipo de genitália então, afe.

Tô com preguiça. Tô sem saco. Queria menos extremismos e mais eloqüência. Queria menos casamentos por comodidade e mais crianças sendo educadas pra pensarem por si mesmas. Queria mais Hilda Hilst e menos Paulo Coelho. Queria meditar, mas não consegui e vim aqui escrever este texto cheio de inconformidade. Queria poder ter nascido com o direito de viver pelo simples fato de, mas nasci num mundo capitalista que nos faz escravos do dinheiro até quando já somos muito velhos pra aproveitar qualquer coisa dessa vida.

Queria que fosse Sexta mais ainda é Quinta e eu tenho que voltar a trabalhar.

Rani Ghazzaoui

Sofrer ou sorrir?

14 Jan

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Já dizia a minha mãe “De pensar morreu o burro”, mas por ser burra, inclusive, eu nunca dei ouvidos e continuei pensando muito, sobre tudo, a toda hora, sem descanso pra cabeça que maquina planos mirabolantes para coisas que a vida muito provavelmente nem vai me pedir uma posição a respeito.

Você é tão diferente de mim. Se faz chuva, se faz sol, se há seca, ou fome, ou vontade não saciada, não importa, nada parece atrapalhar a sua serenidade, o seu contentamento com a vida, a sua alegria tão sincera que chega a ser irritante, incompreensível. Mais incompreensível, inclusive, é a felicidade que eu sinto, só por saber que você é tão feliz, e a tristeza que me dá quando, sem perceber, eu esfrego a minha tristeza no seu sorriso, e ele fica sem aparecer por alguns dias e nossas escuridões finalmente se encontram, sinuosas e assustadoramente simétricas.

Eu fico aqui mentindo pra mim mesma, mentindo pra você, te dizendo que a sua felicidade simples faz de você alguém desinteressante, bobo. Fico aqui falando a toda hora, me fazendo ser tão importante, falo tanto das minhas qualidades nessa tentativa vencida de justificar a minha falta de amor pelas coisas, a minha intensa dor  que me consome desde o dia que eu pude entender o que é dor, esse oco dentro do meu peito que não me deixa completar a minha existência porque eu tenho tanta sede de controlar tudo, tanta vontade de perfeição, tanta mania de nunca estar assim como você, simplesmente satisfeito por estar aqui.

Mas a minha absoluta certeza de mim mesma é mentira, não me dê ouvidos, não se engane.

Os criativos esquizofrênicos da nossa geração fizeram porque fizeram e o resultado está aí, a ansiedade foi mesmo glamurizada. Woody Allen venceu.

E foi quando eu vi que a vida era feita de escolhas, que percebi quais eram as minhas: Ser fútil ou intelectual? Marombada ou anoréxica? De direita ou de esquerda? Ser vegan ou ser blogueira de moda? Yogui ou hard core? Fazer meditação ou alimentar a gastrite com ódio, vinganças e frituras deliciosas? Ser classe média com orgulho (“Born and raised, yo”) ou defender o comunismo maciço que dorme sereno na parte mais espaçosa do meu coração?

Pra todos os meus dilemas sempre existiu uma única resposta constante: decidi ser ansiosa. Decidi pensar sobre tudo o tempo inteiro, mudar de idéia como mudam as estações do ano num mesmo dia em São Paulo, decidi que não importa o quanto eu sofra no processo, o intuito dessa vida não é ser feliz porra nenhuma, mas sim entender porque cazzo é que fomos colocados nessa bola azul tão bonita, e fomos dados todas as ferramentas para sobrevivermos em harmonia e, mesmo assim, vivemos em descontentamento, vazios, em guerra, em desarmonia, ansiosamente buscando por respostas pra perguntas que fomos nós mesmos – os gênios – que inventaram.

Você me inspira, e eu tenho vergonha de admitir que talvez eu não seja assim, tão complexa como o meu ego gostaria que eu fosse e que, pela primeira vez na minha vida, alguma coisa realmente faz sentido.

E a sua simplicidade é a maior beleza que meus olhos já viram neste planeta; ela é mais mágica do que adormecer ao sol morno deitada na areia fofa da minha praia preferida, e é mais real do que todas as minhas tentativas de explicar em palavras qualquer uma das minhas quatrocentas mil emoções que eu sinto repetidamente todos os dias da minha vida, desde que eu nasci.

Você é real. Sua vida é real. Seus problemas são reais. Sua existência é real. E você é feliz, e pronto.

E você me diz todas as noites baixinho, “Só quem precisa te aceitar é você.”, e eu fico pensando em como eu trocaria todas as minhas glamurosas esquizofrenias só pra ser um pouco mais parecida com você, assim, simplesmente feliz.

Enquanto eu tento preencher os buracos da minha alma com toda essa baboseira, com toda essa literatura, com todo esse cinema europeu e todas essas pessoas que são assim, tão loucas, ansiosas, irônicas e depressivas como eu, você está aí, sempre sorrindo.

Eu passo todo o meu tempo julgando a sua serenidade, tão preocupada com os porquês, e a vida continua passando por mim. E a ironia maior de todas é que a burra aqui fui sempre eu mesma. Mesmo.

Rani Ghazzaoui

Não era dele

30 Oct

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Antes dele, ela existia. Existia diferente, existia mais doce. Ele foi embora há tanto tempo que seu rosto já não tinha mais formato, sua voz não lembrava mais nenhum som e sua verdade já não fazia parte nenhuma da vida dela. Ela se libertou daquilo tudo, daquele passado, se libertou dele. Depois de anos, depois de tanta coisa errada que deixou que ele fizesse com ela. Mas mesmo assim, mesmo sendo póstumo, mesmo sendo indolor há tanto tempo, mesmo sendo, inclusive, extremamente desimportante agora, o coração dela mudou inteiro por dentro, ficou mais escuro, mais amargo e mais sujo por conta da falta de amor que ela sentiu por todos os anos que precisava ter sido amada por ele.

No fundo ela sabia que, à essa altura, já não era nem mais justo colocar toda a culpa nele. Os anos passaram e a memória dele sumiu, o que sobrou foi o fantasma que agora vive dentro dela, o fantasma que se alimenta das suas inseguranças plantadas e faz com que ela guarde com todos os dedos, e unhas e venenos seus sentimentos pra que ninguém possa mais uma vez usá-los contra ela. Os resquícios ficaram não porque ele ainda fazia parte dela, eles estavam ali porque, é verdade, ela mudou pra sempre.

E toda vez que ela tentava se lembrar de como era enxergar o mundo com olhos mais infantis – aqueles que esperam tudo do mundo, tudo das coisas, tudo de qualquer pessoa porque, de verdade, acreditam no bem – ela já não conseguia; era impossível não jogar a culpa diretamente pra ele, o grande monstro dentro do seu armário chamado passado, impossível não torcer o seu nome dentro da boca, porque tinha jurado nunca mais o repetir, prometido a si mesma que nunca mais daria a ele o prazer de fazer parte da vida dela, dos seus pensamentos, do seu amor e nem da sua raiva. A única grande certeza é que dela ele já não merecia mais nada, nunca.

Todo dia então ela olhava seu rosto mais velho no espelho. Examinava cada linha, cada traço, cada resquício de familiaridade, de lembrança, de reconciliação do seu gesto com seu sentir. Fisicamente quase nada mudou de lá pra cá, sua genética tinha sempre sido delicada com ela, desde pequena, e os anos iam se empilhando levemente em seu rosto que ainda tinha, fisicamente, a capacidade de se contorcer à cada emoção. Mas quando ela olhava fundo, se sentia como se não houvesse ninguém em casa, parecia que, há tempos, tivesse fugido de si mesma e na frente daquele espelho só ficou a carcaça, aquele corpo vazio que imita uma vida que um dia ela tinha sonhado ter.

Amores vieram depois dele, mas ela nunca conseguiu senti-los. Não de verdade, não como se deve.

Toda vez que ela tinha um pesadelo era o rosto dele, roubando dela tudo o que ela sempre supôs ser seu. E a cada relacionamento que ela começava, tentando cantar o mantra de mentiras em sua cabeça de que, dessa vez daria certo, outra parte do seu coração apodrecia, virava enxofre, fedia.

Ela passou tantos anos de sua vida colocando todas as forças do seu amor num amor errado, tantos anos desejando ser amada como ela amava, ser completa junto, entendida, paparicada, desafiada, desafinada, enlouquecida, preenchida e louca de amor, de tesão, de paixão. Mas a paixão que ela viveu, aquele amor que hoje ela conta como sendo o divisor de águas da sua vida emocional, só aconteceu na cabeça dela. E agora quando ela tenta fingir acreditar que está se dando outra chance, ela sabe bem lá no fundo, que toda vez que ela entra agora, ela já entra carregando a derrota, ela passou a se sentir tão mal por si mesma que, antes de tentar acreditar, ela já desistiu.

Ele poderia ser qualquer um. Na verdade, ele foi mesmo qualquer um, um amor barato, bandido, esquecido na quinquilharia que vira aquele espaço do cérebro onde ex namorados, ex amigos e ex chefes se misturam nas mesmas gavetas, empoeirados. O problema dela era guardar tudo, guardar por tanto tempo. O problema era analisar com a lupa tentando achar a solução de um problema que na verdade eram muitos e a resposta era simples.

E ainda que ela encontrasse um amor que desse a ela todas as coisas com as quais ela sempre sonhou, sua vida seria triste. Não porque aquele cara, o mané, não soube a amar direito, mas porque não merece felicidade quem dá de presente a outra pessoa a sua habilidade de se fazer feliz. Ela achava que ela só existia antes dele, mas o que existiu antes, de verdade, foi um grande vazio que precisava ser ocupado por alguém para levar a culpa por ela nunca ter conseguido se amar, se aceitar, se moldar em qualquer formato que ela decidisse precisar ser.

E um dia quem sabe o amor poderia sim ser o líquido que preencheria tudo, mas só quando a jorrada viesse de dentro dela.

Rani Ghazzaoui

Não existe amor na Escócia

7 Oct

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Resolvi curar a minha doença com o único remédio que eu sei usar. Porque a ansiedade de um começo pra uma vida que já começou não me deixa dormir, sorrir ou respirar direito desde que me dei conta que, enquanto eu perco tempo imaginando como minha vida vai ser ótima amanhã, a minha vida hoje vai passando sem volta, sem que eu nem perceba que ela está indo embora pela janela que eu mantive aberta, pra ver a verdade alheia e esquecer a importância da minha. Todo mundo por aí tem uma receita pra ansiedade, todo mundo acha que sabe o que é melhor pro outro apesar de nunca conseguir resolver o quebra cabeça que lhe pertence; desatar nó dos outros parece sempre mais fácil já que nunca é feito mesmo por nossas mãos.

Lá fora faz frio, lá fora faz meses que só chove, que só é cinza, que só é fosco, só é sujo. Meu cérebro tenta acompanhar e fica escuro também, analisando com toda nota tétrica dentro de mim as situações corriqueiras, me fazendo enxergar tudo como um sinal de que a vida é uma merda bem grande, e fedida, e chuvosa num dia frio nesse lado monótono do mundo.

O estômago vai virando e dando nós, tentando digerir (como se fosse um hambúrguer bem gorduroso, daqueles que só o cheiro ataca a gastrite) as emoções sem nome que nem os melhores psicanalistas do mundo conseguiram nomear. O coração tenta parelhar com a respiração – que é breve e pouca – e começa a bater desenfreado, como o carro chefe da escola de samba, que mostra quem manda naquela porra. Se você não controlar o seu estômago, que controla sua respiração, seu coração vai bater e bater e bater sem parar, até você entender que você está vivo, muito vivo e que ser assim tão sentimental só vai servir pra te matar aos pouquinhos, principalmente nesse lado tão gelado do mundo.

Sabe aquela história de que quando o escritor anda feliz ele não consegue escrever? Às vezes quando ele está muito triste, ou descompassado, ou perdido na nuvem negra que vira de vez em quando a cabeça dos criativos, ele também não consegue já que o papel – para ele – é a final confirmação da idéia. Uma vez que está escrito, já era, existe mesmo, é de verdade. E muitas vezes é mais fácil se juntar ao time dos que escondem seus demônios – do mundo e de si mesmos -, muitas vezes é mais atrativo ser só mais uma cara feliz na rede social, mais um coxinha do Twitter.

A gente vai vivendo a nossa vida e vai deixando que ela nos mostre coisas sobre nós que nunca teríamos percebido sozinhos. Você só descobre o quanto gosta de praia quando vive na neve, só sabe que felicidade está nas pequenas coisas quando as pequenas coisas que você tinha agora já não mais são, só dá valor pro amor, pra amizade e para a família quando cada um deles está em um canto do mundo, e você sabe que nunca mais vai ter concentrado no mesmo fuso horário deste mundo os três outra vez.

Quando me mudei do Brasil, há 6 anos atrás, eu sentia falta da minha família, da comida de casa, dos meus amigos. Com os anos, aprendi a cozinhar, fiz outros amigos e usei a benção que é a internet para manter o contato com a família e os poucos amigos insubstituíveis. Quando eu me mudei eu sentia saudade do externo, do que não me pertencia, do que me completava. Mas hoje, sentada diante da paisagem pitoresca que só uma árvore imóvel, amarelada e com suas folhas ameaçando a cair pode te presentear, a minha solidão é imensa já que nela cabe a maior saudade do mundo, a minha saudade de mim.

Morando na Escócia descobri que comida, amigos, família, música, cultura e todas as outras coisas que eu achava fazerem de mim quem eu sou, são – mesmo que à distância – ajustáveis, fazíveis. Distância é um treco muito louco, mas com certeza te une aos que te amam e te afasta dos que não valiam tanto à pena; ela só agiliza o processo infalível que a vida tem para todos os relacionamentos: ou fica pra sempre, ou vira passado. Mas o sol, só o sol e nada mais, ele sim se provou ser a única coisa que não consigo, não posso e não quero viver sem. Pela primeira vez na vida entendi o motivo daquele exagero, “o astro rei”. Sol te dá cor, te dá energia, te dá calor. Uma vida sem sol é uma vida escura, fria, abandonada.

Meu tempo por aqui ainda não acabou, na verdade não sei quando acaba. O que sei é que no escuro é que decidimos a nossa vida, já que nada nesse mundo é certeza. Pode ser que eu vá amanhã, e pode ser que eu fique por mais algum tempo trabalhando o que é morar dentro de mim sem nenhum desconto da natureza, do cheiro de mar morno e do bem estar geral que só uma noite de verão pode te dar. Pode ser até que meu desgosto generalizado seja fase e que, no dia que eu for embora, eu até sinta saudade do rosto duro, do humor escuro e da chuva sempre à beira de desabar, como as folhas das árvores escocesas no outono.

Queria poder dizer que, quando eu for embora, agradeceria a hospitalidade e apagaria a luz ao sair, mas esta ilha tão fria, cheia de pessoas programadas para não olhar pela janela, nasceu e vai morrer no escuro.

A minha ansiedade é pela claridade.

Rani Ghazzaoui

*photo also by Rani Ghazzaoui, all rights reserved

Emoção Unissex

26 Jul

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Ela apareceu na minha vida pra que eu acreditasse que o que veio antes era só um presságio de felicidade. Eu lutei contra o que sentia por ela porque me fizeram acreditar que de bom eu não merecia nada. Agora está tudo turvo de novo.

A minha loucura tão sempre lembrada por ela em qualquer oportunidade me faz pensar que a culpa da eterna não felicidade é minha, que a minha vida nunca vai andar por linhas comuns, calmas, não febris. Me faz acreditar que felicidade e tranquilidade não ocupam a mesma caixa dentro de mim.

Mas vai ver é isso mesmo, eu não sou comum. Ela diz que eu falo alto, muito alto pras normas de etiqueta que eu não poderia dar menos importância para – tão diferente dela. Mas a verdade é que a minha frustração grita muito mais alto que o conformismo que eu vivo tentando, mas não consigo. Todo mundo acha que ela é tão boazinha, e eu tenho um problema muito sério: eu não consigo não dividir tudo o que eu sinto e penso com a pessoa com quem resolvi dividir a vida. Acaba que, como sempre, ela sabe muito mais de mim do eu dela, e a minha auto-desvantagem faz com que a minha vulnerabilidade seja usada quase que inevitavelmente contra mim.

Ela sempre fala de controle. Fala como se, na vida, qualquer situação ou emoção pudessem mesmo ser controladas. Ela fala em “levar” as coisas, em aceitar o mundo e as pessoas como elas são, em não perseguir mudanças e vitórias. Fala desse jeito que me deixa tão confuso, e me deixa com raiva de que alguém como ela me faça me questionar o mundo.

Minha pergunta agora é para o meu eu do passado, que achou que seria suficiente pra mim uma vida de conformidade. Eu, que sempre vivi de ser inconformado.

Meu cérebro dói. Doem minhas mãos, os meus braços, meus olhos, minhas pernas, doem os meus pés. Os dela parecem não sentir nada enquanto pisam de salto em tudo o que sobrou de mim nesse chão. A coisa mais louca de uma loucura é dia após dia tentar convencer à si mesmo que uma relação falida, da noite pro dia, vai se salvar.

– Ele te disse tudo isso?

– O lance é estar ou não na fase da vida onde você está, de verdade, pronta pra dividir a sua com alguém. A gente cresceu numa sociedade onde mulher teve que provar tanta coisa pra ser igual aos homens, que de uma certa maneira, a gente ficou igual à eles. Egoísta emocionalmente e com medo de uma relação monótona porque, pela primeira vez na vida, mulheres têm um certo direito à variedade sexual sem discriminação. Talvez agora a gente entenda porquê homens traem. Porque sim, quando você pode, tem tanta tentação por aí. Mas é aquilo lá de novo, a sedução dura algumas semanas, e só dura isso também o frio na barriga. Amor não, amor é diferente. Lembra da música da Rita Lee?

– Não. Acho Rita Lee muito amor livre pro meu gosto.

– E eu acho que você tem que decidir qual é o tipo de amor que você gosta.

Todo mundo sofre, independente do gênero. Todo mundo pode ser um grande filho da puta, independente também, do sexo que carrega no meio das pernas. As pessoas teimam, cismam, forçam amores que são só delas, mas que elas preferem acreditar dividir com aquela pessoa com quem estão, temporariamente, dividindo fluidos numa cama.

A gente passa a vida atrás do amor, procurando tão cegamente que, muitas vezes não percebe que perder anos ao lado de alguém que não nos ama de volta, só tirou esses anos da conta de alguém que poderia ter amado. Não tem jogo dos sexos; inteligência emocional (ou falta de) é meramente humano.

Rani Ghazzaoui

Das dores: Maria, a óbvia.

22 Nov

Foi susto. E suspiro. Tudo junto naquela sensação tão conhecida pelos ansiosos, o rosto avermelha, o pescoço fica quente, o coração quase para, congelado, e o estômago produz, revira, faz barulho e dói. Nada na vida é bom quando o estômago dói daquele jeito que o dela doía toda vez que a vida resolvia não concordar com ela nos detalhes. A vida é mesmo cheia deles.

Ela andou até a porta, apoiou a cabeça no batente. Pensou que se ele não voltasse não tinha problema porque, de verdade, nem ela mesmo ali estava. Perdida como cachorro em mudança – se desculpando pelo trocadilho infame – já que humor era só o que restava para ser usado de massa corrida naquele fragmento da vida dela.

‘Sorria’, ele falava baixinho. Os dentes dela rangiam de raiva de não sabia o quê. ‘Seja mais leve’, ‘Não fique tão estressada’, ‘Seja otimista’, ‘Acredite na vida, na sorte, no amor, nas pessoas’. Mas ela não acreditava em nada, nem em credo, e seu ceticismo era claro, alto e doloroso: a vida nunca tinha sido muito fácil pra ela e, por esse exato motivo, aceitar amor incondicional parecia coisa de princesa da Disney, mas ela sempre foi medrosa demais pra montanha russa e ranzinza demais pra fofices como ratinhos vestidos como gentinha. O mundo já tinha muita gentinha como era e ela só pensava em pisar nos ratos e sair correndo.

Mas do lado de lá da relação era tudo diferente. Ele não. Não pra tudo o que pudesse ser negativo, não para o próprio princípio da negação. Não pra tudo o que fosse doloroso, desimportante, desinteressante ou profundo demais que fosse capaz de te deixar pra baixo. Não, pra quem dizia não, pra quem queria ter muita razão, não pra tudo o que causasse complicações e aborrecimentos, e dor. Não pra dor. Pra ele, dor não era necessária pro crescimento, pro amadurecimento, pra nada.

Mas ela era profunda, tinha que ser profunda, e doía sempre, era feita de doer, não sabia ser se não fosse poço fundo de fortes emoções. Ela era a piada do cúmulo da dor, e escorregava no topogã de giletes pra piscina de álcool como atleta olímpico.

E ela sentava ali, enquanto ele passava pela vida de leve, pensando onde foi que a versão masculina da Pollyana do livro decidiu que seria bom se relacionar com a Maria do Bairro. Aquela Maria que sofre, e que chora, e que namora, e que separa, e que chora mais um pouco, e que tem inimigos, e que tem amigos que viram inimigos, e que tapa o sol com a peneira, e sofre mais, e briga com a família, e faz as pazes com os amigos que viraram inimigos, e desfaz as pazes por conta da traição – porque Maria sem traição não seria Maria, assim como não seria Maria sem dor de amor, dor de cotovelo, dor de sabe-se lá o quê – , e sofre mais um pouco, e chora mais um pouco, e sofre tanto que chora mais um tanto e acaba chorando de tanta dor de sofrer as dores que ela mesma causa a si mesma mas que, nem Freud explica porquê, não consegue parar. Ela gosta. Gosta de sofrer, a Maria. Em seu bairro, em seu apartamento, em seu quarto, dentro da sua cabeça bagunçada de mulher à beira de um ataque de nervos do século XXI.

Foi susto. E suspiro. Tudo junto naquela sensação tão conhecida pelos ansiosos, que naquele fragmento de segundo não sabem diferenciar realidade de paranóia, certo de errado, grito de sussurro.

Mas a campainha tocou e ali estava ele, sempre de volta, sempre sorrindo, sempre tão drogado de vida. Ele chegava e o abraço dele era como edredon fofinho numa manhã gelada. Ele sempre voltava mesmo com a mania de abandono dela, com o pessimismo dela, com a vontade insana de chorar a vida porque, na verdade, ela simplesmente nunca se permitiu sorrir. Não inteiro, ela não era inteira, pelo menos não até ele chegar.

E a cada dia que ela passava presa na mentira que ‘é bonito ser triste’, ela esperava –  permitindo a pequena dose de esperança que seu estômago era capaz de digerir – pela chegada dele, toda noite e todo dia que, embora não mudasse por completo quem ela era, a completava e a fazia, meio otimista.

E um dia, ela desejava forte e baixinho pra nenhum cético hipster ouvir e criticar, que todo aquele amargo fosse embora, que toda a raiva, como mágica, acabasse por ali e parasse pra sempre antes que, sem perceber, fosse ela que parasse. Mas desejava tão baixo que, suspeito, queria que nem a sua própria cabeça conseguisse ouvir. A cada vez que pensava em não sofrer nunca mais, o estômago voltava a doer.

Aquela coisa de achar que tristeza é sempre bonito e acabar ficando tristemente feio. E óbvio.

Mas a Maria é louca. E complexa. E obviamente, obviedade, de todas as coisas desse mundo, é a última que Maria vai entender.

Coitada da Maria.

Rani Ghazzaoui