Archive | October, 2017

Quem passa?

10 Oct

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Voltar pro passado tem dessas. A gente abre uma porta que dá numa sala da qual tínhamos nos esquecido completamente. Uma pessoa, duas pessoas, uma multidão. Gente que na sua cabeça já não tinha rosto, nem cheiro, nem gosto. E aí você descobre, com um espanto que também te surpreende, que gosto não se esquece, que pele tem memória.

Você muda de cômodo e, cômodo, um espelho te espera naquele canto do quarto que um dia foi seu refúgio do mundo e, hoje, apenas canto e, hoje, de novo o mundo. O espelho te olha e você estranha; estranha que pela primeira vez em anos se reconhece, e ele também te reconhece, o espelho.

O portal de coisas que foram e você achou já não serem mais se abriu, e aí você descobre que o ciclo de repente se intercalou e ninguém lembrou de te contar que a crise dos trinta se extende por uns anos, que ela chega em lugares que não só a mesa do seu trabalho e o trabalho na sua mesa.

Hard core tem barulho de adolescência; de repente te dá saudades. É de um período específico, onde o tempo parou e tudo depois daquilo é referência do que passou. Você ali no passado, passando por tudo de novo. Uma benção. A cabeça dele no travesseiro, lembra? Ele nunca falou muitas coisas, nunca te entendeu muito bem. Ele lembrava. O sorriso. A falta de tempo. O beijo. O cheiro. Nosso corpo também não esquece.

Se perderam muitas vezes, eles. E também se acharam tantas outras.

Quando o sujeito que vive pra sua arte – e da sua arte – para de supetão de ser artista, deve significar, sem muito segredo, que a força vital dele então acabou, não? De onde tirar inspiração quando a vida que se vive não é sua? Quando nada ali te pertence. Pra criar é preciso pertencer. Pra criar cor é preciso caos, mistura, momento.

Voltaram praquela posição de sempre; suas bocas a meio milímetro de distância, o ar de um sendo o ar do outro. Ele olhava pra ela como quem via a saudade personificada. Ela, pra ele, como quem enxergava a vida. Se viam e se descobriam de novo, pedaço por pedaço e, como quem nunca saiu daquela posição de milímetros contados, eles sorriam.

As histórias se repetem e se confudem. Toda lembrança tem um quê de fantasia. O espelho te olha de novo procurando em você aquela ânsia de estar aqui; a gente se olha confuso, já que aqui estamos todos, mesmo que em pedaços.

Voltar ao passado tem dessas. A gente abre uma fresta e quando vê escancarou a vida: é tudo recorte, tudo corte, tudo exposto, tudo amor, saudade ou remorço. É tudo insubstituível e imprestável, posto que agora jaz.

O tempo passa rápido demais.

Rani Ghazzaoui

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