Archive | March, 2017

O nome dela

22 Mar

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A vida estava parada. No mesmo ponto, no mesmo tempo, no passado que nunca mudou. Ela ali sentada, sua mão escorregadia, seu coração amargurado. Adoecia. E fazia tempo já. Seu corpo estava reclamando da falta de amor, de carinho, de atenção; estava precisando de vida, de viver.

Olhava pra todos com um olhar de decepção. A vida a tinha decepcionado tanto que maciez alguma, especialmente quando alheia, fazia com que ela sentisse amor. Felicidade então, esquece, não fazia mais parte do seu vocabulário agora tão cheio de desânimos, de defuntos, de desamor.

Se lembrava vagamente de um tempo onde a pele estava viçosa, os sorrisos aconteciam aos montes e a vontade de aceitar o diferente ainda dava frio na barriga. Lembrava do êxtase, de estar em êxtase, palpitante, colorida, luminosa, viva. Mas a lembrança era vaga e espaçada, a lembrança era uma morada empoeirada que nunca recebia visitas, que foi há tempos já abandonada.

Ela quis se levantar daquele chão gelado, tentou até. Mas o chão era ímã, parecia. Sua vontade de normalidade (ela ria da normalidade, a normalidade lhe dava nojo e pena, a normalidade era para os fracos, os mudos, os loucos) eternamente atraída pelo magnético do chão frio, do chão sem esperança.

Houveram dias em que ela brevemente se levantou. Telefonava, raramente, praquela amiga de infância, contava causos que criava em sua cabeça – em sua maioria, história de perseguição, de abuso, de falta de afeto. Mandava beijos (e ria dos beijos, pois beijar é mentir o seu afeto ao outro, é depositar sua esperança sem saber se haverá retorno, e acreditar era para os fracos, para os bobos, para os infantis, os loucos) e desligava o telefone e o mundo. Tudo ficava pra trás, pra fora; seu tudo era um tanto de nada.

No chão, caricaturas. Dela mesma, de momentos, de pessoas com quem ela se relacionou. Pilhas e pilhas de fotos sem moldura, uma vida sem álbum, perturbada, bagunçada, com desejos de amor aqui e ali, e quantidades obscenas de tortura, especialmente auto.

Algumas pessoas tentaram ajudar, mas a maioria só ria, já que desgraça humana, especialmente quando alheia, era prato cheio para um fulano se sentir normal. Normalidade, essa coisa cruel.

Ninguém olhava pra ela, ela não olhava pra ninguém, ninguém se olhava. Uma geração inteira de colunas curvadas e lombares doloridas de tanto olhar pro próprio umbigo.

Infelicidade é uma doença moderna, ela um dia ouviu alguém dizer em uma de suas raras visitas ao mundo real. Caiu na gargalhada, ali em meio a todos os olhos que só enxergavam nela seus próprios medos de deteriorização. Nada faz uma pessoa se sentir mais quentinha e segura do que um estranho, um maluco, um misfit. Essa eterna ilusão coletiva de que, efetivamente, estamos todos bem, no geral, na maior porcentagem, aqui nesse grupinho seleto de gente bacana, sã, que “deu certo”.

Seu nome era Luisa. O nosso também.

Rani Ghazzaoui