Archive | June, 2016

Imagi-Ana-ria

17 Jun

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Ela me inspira, já tem anos. Quando meu eu lírico se cala, eu a leio então, calada. As palavras dela me tocam, me excitam, me deixam com raiva por não ter sido eu que as escrevi. Ela é linda, esbelta, sorrisão daqui até aqui. Ela tem irmãs que eu nunca tive e desse dom que dividimos parece que ela levou uma metade maior do que a minha. Levou três quartos.

Sempre gostei de nome composto. Gente de nome composto nos meus olhos de menina eram complexidade. Os pais não conseguiram se decider entre um nome ou outro, então deram dois. Aquela pessoa, mesmo sem ter pedido, nasceu com direito de ser duas, de poder duas vezes, de trocar a personalidade quando bem entendesse. Maria, Cláudia, Fernanda, Carolina, Paula, Lúcia, Clara, Júlia. Eram tantas as Anas. Ela era todas.

Tive um amigo que era pintor. As coisas mais lindas ele desenhava. Ele me ensinou sobre a vida, falamos tanto sobre amor, ele me entendia. Um dia, no meio de um papo cabeça que durou a madrugada toda, ele me prometeu pintar minhas palavras com suas tintas, seus muitos pincéis, seu talento. Mas meu amigo também conhecia Ana e ela, como pra mim, era musa dele. E ele só sabia pintar com ela, pra ela, sobre ela. Nem raiva eu tinha. Ela merecia, ela era luz enquanto eu e ele só sabíamos viver de sombra.

Fico imaginando como são as Anas dos meus amigos escritores, músicos, artistas, atores. O que elas comem, como se vestem, sobre o que conversam. Quais livros estão na estante de sua Ana? Onde ela estudou, o que ela gosta de fazer aos Domingos? Sua Ana tem quantos anos, quantas tatuagens, quantos amigos? Você é amigo da sua Ana?

A gente se conheceu por uma amiga em comum. Conversamos por horas, trocamos contos das nossas vidas, trocamos figurinha sobre o que faz de alguém um escritor sensacional, único. Não viramos amigas de infância, nunca mais nos vimos, inclusive. Trocamos endereços de blog e seguimos com as nossas vidas. Ana não é minha amiga, não é minha colega, não é real. Ana virou o ideal de tudo o que eu queria ser na minha cabeça, virou uma memória de todas as coisas que ela foi naquela noite de Outono quinze anos atrás. Ela era profunda e descontraída, eram bem ajustada e estranha, era amiga de todo mundo e ao mesmo tempo ninguém conseguia se aproximar demais dela. Ela era exata.

E eu não sou; nunca fui. Eu sempre fui caos e escuridão, desejo de coisas que ninguém deseja, bagunça, tremedeira, fervor. Eu sempre fui a esfinge que desistiram de decifrar, a equação que não fazia sentido porque eu não sei resolver nada que passe de regra de três.

Ana era a meu oposto, era o meu nome composto. Aderi à Ana como quem gruda no brinquedo novo que ganhou no Natal. Ela me completava e me dava o poder de ser quem eu queria, mas não era. Ela lia todos os livros que empoeiravam na minha estante, sabia de cor declamar as poesias que eu nunca entendi. Escolhia pra ela os amores mais profundos, sentava na varanda lendo jornal no Domingo, discutindo Foucault e cinema mudo. Ana era claridade, eu complexidade.

Hoje de manhã li que Ana estava com frio e pensei em como suas palavras sempre aqueceram a minha vida. E daí fiquei pensando que talvez eu também seja a Ana de alguém, alguém que hoje também sentiu frio e achou abrigo aqui, nessa parte do meu cérebro que não para de falar por um minuto.

Nesse mundo tão cheio de gente que passa, há pessoas que ficam, mesmo quando nunca estiveram. Isso, pra mim, é beleza, é leveza, é literatura.

Obrigada Ana, por ser infinita.

Rani Ghazzaoui