Meu Bill (e seu kill)

20 Jan

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Eu não sei escrever com a cabeça, eu só sei escrever com as vísceras. E, pra isso, elas têm que estar em carne viva, sangrando.

Eu não sei escrever histórias em que os mocinhos e mocinhas têm hora pra tudo; começo, meio e fim. Minhas histórias também não têm vilões, porque eu custo a acreditar que a maldade escolhe um lugar apenas pra se aconchegar certeira. Maldade, pra mim, é a absoluta certeza de que se é bom.

Eu não sei me explicar quando tenho vontade. E as minhas vontades se empilham no chão do meu quarto escuro. Bagunça sentimental é minha decoração preferida e a minha coleção de center pieces dura já uma vida inteira.

Ele olhou pra mim e eu sabia que eu estava ferrada. Aqueles olhos, o formato, a cor, a intensidade. Parecia que ele estava enxergando dentro de mim e eu fiquei envergonhada. Foram dias e dias de vontade acumulada, de desejo que não tem pra onde ir. Imaginava as mãos dele, os braços, os abraços, os pelos, o cabelo, as pernas contorcidas. Imagina a desgraça. Mas a culpa não era dele, e eu sabia. A culpa também não era minha porque eu precisava tanto daquela coisa que, por mais que eu tentasse mudar a dinâmica, vinha sempre dos outros e nunca de mim. Eu precisava dele porque ele representava o que eu sabia fazer de melhor na vida.

Desejar é uma arte e ele sabia, eu acho. Ele sentia. Sentia a tremedeira nas pernas que eu também sentia toda vez que esbarrava com ele no corredor. Eletricidade. A gente corria. Besteira adolescente, eu pensava. Caralho, como era bom me sentir quinze de novo, mesmo que por duas horas num mundo de mentira. Quando eu era mais nova, não sabia escrever sem palavrão. Profanidades, pra minha eu adolescente, eram como cerejas no bolo: alegravam os olhos, me faziam mais alta. Ele me fez xingar de novo. Fazia tanto tempo que eu só vivia mantendo a compostura.

Sonhei todos os sonhos do mundo com ele e acordei em todas as madrugadas seguintes sedenta e atordoada. Que calor era aquele dentro de mim?

Eu não sei escrever com a cabeça, eu só sei escrever com as vísceras. E, pra isso, elas têm que estar em carne viva, sangrando.

Ele morreu ali, naquele sofá. Fiquei disléxica e matei tudo o que podíamos ter sido com as minhas palavras de quem não demora. Ele queria mais, eu queria mais. Chegamos na hora errada. Nunca entendi ao certo, mas prolixidade não garante amor e o relógio da vida parece nunca emparelhar as horas com os relógios de quem queremos permanência.

E eu sangrei. Muito, por meses, uma hemorragia de coisas que precisavam ser ditas mas nunca foram. Uma cena do Tarantino num dia ruim.

Eu abri uma fresta da janela pra ele me enxergar e fiquei esperando ele chutar a porta. Ele não chutou. Eu não abri. Estamos aonde estávamos, nada mudou.

Eu não sei como aconteceu, mas ele chegou e ele existiu. Na minha eterna necessidade de me sentir completa, ele me mostrou que dois pedaços não fazem um inteiro e que a nossa verdade pode sempre ser uma mentira muito bem contada.

Voltei a viver a vida. Minha porta continua fechada, minha fresta eternamente aberta.

Rani Ghazzaoui

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