Archive | November, 2015

Sobre os trinta: A astrologia, a loucura e a sabedoria.

16 Nov

saturnreturn

Enlouqueci.

Sei, completamente sã eu nunca fui, mas Saturno está aqui, vinte nove anos depois, e eu enlouqueci de vez.

Joguei roupas, livros, filmes do coração, certezas de uma vida inteira, amizades, inimizades e desejos pela janela. Não quero mais. A profissão, a grana, o status, a baboseira, o amor perfeito, a perfeição em si, a trivialidade, os modismos, as conveniências, os relacionamentos que não trazem nada. Surtei.

Minha mãe me diz há anos, muitos mesmo, que eu preciso dominar as minhas emoções, que a vida é muito curta pra deixar que os nossos sentimentos decidam todas as direções dela. Pela primeira vez eu entendi. Saturno chegou avassaladora – Saturno, com certeza, é mulher e das doidas. Chegou e chutou meu barraco, desarrumou tudo que eu passei quase trinta anos moldando, achando que era o que eu precisava exatamente pra ser feliz. A crise dos trinta não te deixa orgulhosa por ter feito tanta coisa incrível, pelo contrário, ela te dá uma gigante pulga atrás da orelha que vive te perguntando se essas escolhas foram as certas, se elas importaram, se o seu precioso tempo nessa terra está sendo bem utilizado. E, honestamente, nunca está.

Pela primeira vez na vida, eu disse não sem o menor medo de magoar. Foda-se a mágoa, esse sentimento sem sentido; mágoa não serve pra nada. Dizer não é liberdade e eu precisava me libertar. A gente faz da vida uma prisão; decide tão cedo o que é que a gente gosta e o que é que não; o que a gente quer, o que não quer nem ferrando. Os vinte inteiros calculando e espalhando tanta certeza por aí, formando as nossas opiniões pra vida toda. Cansei de abolutismos. Cansei de ter certeza. Cansei de mim, dessa carapuça que serviu há dez anos atrás e que eu continuei arrastando com o meu corpo moído mesmo quando ela já não me cabia mais.

Nós fazemos isso. A gente se obriga a ser quem a gente achou que deveria: “Quando eu tinha vinte anos eu tinha certeza que ia ser casada, com filhos e muito bem sucedida aos trinta e dois”. Aí, agora, trinte e dois é logo ali e os seus sonhos juvenis nunca pareceram tão distantes. Ao seu redor, a vida de todo mundo parece andar pra frente, cumprindo as metas, fazendo check ins infinitos no Facebook da vida perfeita.

Que preguiça.

Tanta, mas tanta mesmo que resolvi parar com tudo que, pra mim, já não fazia sentido algum. Ressetar. Começar de novo. Me entender no agora.

Saí do meu emprego, me desfiz de amigos que já não eram isso há tempos, voltei pro teatro e escrevi esse texto em primeira pessoa. Porque, pois bem, se um terço da minha vida já passou, nada mais justo do eu que finalmente perceber que nada do que importava muito aos vinte, importa de verdade no contexto geral da vida. Até porque se a vida, com sorte, dura 90 anos, eu já gastei o meu primeiro terço me preocupando demais com coisas que não tem solução, então seria burrice prosseguir na mesma pegada.

Eu me reencontrei na minha loucura, mais calejada, mais sussa, mais adulta; devagar as coisas começaram a fazer sentido, e envelhecer foi deixando de ser assustador e eu percebi que idade é liberdade. E liberdade é uma delícia.

Em suma: Vem trinta! Eu com certeza não tô pronta, mas também não tô nem aí.

Rani Ghazzaoui