Futuro

28 Jan

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A noite estava escura. Ela, vazia. Fazia tempo que não conseguia colocar pra fora a bola de pelo presa dentro do peito. E doía. Fazia calor lá fora mas dentro dela tudo congelou. Era como se tivesse visto um fantasma. Acontece que parado ali, naquele segundo onde os olhos deles se cruzaram depois de tantos anos, ele já não era quem tinha sido pra ela, era outro. Mais maduro, mais gordinho, mais trivial. Mais estranho. Tanto que a fez questionar de onde todo aquele passado aconteceu. Onde estavam eles quando estiveram juntos? Quem eram mesmo aquelas pessoas? Será que em algum universo paralelo, onde o tempo correu em outras direções, eles ainda existiam? O segundo mais longo de sua vida. Lembrou o porquê passou com ele tantos anos. Perto dele, tão normal, ela se sentia única. Ele a olhava de longe, tinha cuidado, apreço, admiração. Pra ele – e talvez só pra ele – ela foi.

Ela não era louca nem sã. Não fazia parte de nenhum grupo específico, de nenhum clã. Tinha muitos amigos – ou teve muitos amigos -, ia à muitas festas – ou foi à muitas festas -, lia muitos livros – ou fingia quando na verdade era mesmo viciada em TV. Ela estava beirando uma idade onde a vontade de se transformar tinha se transformado numa quase certeza de que talvez já não desse mais tempo. Estava em crise. Estava trinta.

Ficou se olhando no espelho por horas. Viu ruguingas que antes nunca, viu seus olhos um pouco mais fundos, seus seios mais fartos, meio flácidos. Celulite. Daí começou a pensar na sua vida até agora: Fiz tudo o que queria? Estou onde imaginei? Sou quem eu achava? Quem sou eu mesmo? A resposta era apenas uma: não sou. Pensava, “Tenho muitas qualidades, mas não sou.” E não era. Ao longo da vida teve muitos amigos do peito; nunca lhe faltou conselho para dar ou ombro onde podia chorar. Mas também nunca lhe sobrou turma, gente com quem ela, em grupo, podia se identificar. Não conseguia entender como na disfuncionalidade de um grupo de mais de três pessoas podia-se surgir amizade verdade. Era intensa. Orgia sentimental não lhe interessava.

A vida se transforma a cada dia; às vezes as pessoas que você conhecia mudam tanto que você não as reconhece, noutras você simplesmente percebe que nunca as conheceu realmente. E enquanto ela andava na direção oposta, os olhos deles se cruzaram por um segundo. E por um segundo eles se acharam de novo antes de se perderem pra sempre, outra vez. Dividir a vida com alguém por muito tempo e ter a sensação de completa desconexão anos depois fazia com que ela se perguntasse se dividir a vida com alguém fizesse mesmo qualquer sentido.

Na escola, status era ter peito grande. No colegial, pai rico ou namorado bonito. Na faculdade, algum talento (não precisava ser muito). No trabalho, sarcasmo e sangue de barata. Na vida, mais difícil de estabelecer, ela achava que era preciso ter leveza – coisa que, pra ela, parecia um sonho além do alcance. A coisa mais difícil nessa vida é aceitar que a felicidade é efêmera e recorrente, e não resultado de uma euforia constante. A coisa mais difícil nessa vida é saber disso e, ainda assim, ser feliz.

No começo de cada ano, enquanto todo mundo a sua volta parecia estar achando novas energias pra acreditar em mentiras antigas, ela sempre se via estancada. Achava difícil aceitar que uma meia noite era capaz de mudar trinta anos de decisões razoáveis. Ficava aflita, ansiosa, chateada. Não era mais um ano, era menos um. Menos um que ela podia ter usado pra fazer o que sempre quis, ser quem sempre (achou que) foi, provar que não estava aqui à toa. Ela era alguém dentro de si mesma, e queria provar. Ela estava lá. Alguém precisava enxergar que ela estava ali dentro, vento tudo, com idéias geniais, piadas incríveis, sabedoria de sobra. Não se encaixava com as meninas bonitas demais porque lhe faltava superficialidade; com as intelectuais demais, lhe sobrava humanidade óbvia.

Ia morrendo, sentia. Teve aquela chance de fazer do amor a coisa que faria direito na vida, mas perdeu. Todas as outras coisas foram meio certas, razoavelmente sinceras, quase lá. Viu no amor dele a vantagem de ter começado como a pessoa que amava menos, mas como tudo em sua vida até agora, perdeu a vantagem no minuto em que achou que poderia ser cem por cento ela mesma em sua companhia. Ninguém é cem por cento caos sem levar junto quem está por perto pra baixo. E ela era puro abismo.

O problema de cair junto é que o buraco às vezes é tão fundo que vocês se perdem; noutras vezes é tão raso que só cabe um.

O ano começou e ela fez trinta. Achou que sua vida estaria diferente de quando o ano começou há cinco anos atrás, nos 25. Mas ela sabia que números eram mera ilusão. Sabia que a verdade sobre a vida não estava em aniversários, em datas comemorativas ou na televisão. Ano novo e aniversário sempre se misturaram já que um vinha um dia depois do outro e, diferente da maioria das pessoas, ela não tinha a chance de acreditar no final de um ciclo imaginário com a possibilidade de renovação duas vezes por ano. Tinha que se renovar ali mesmo: sete ondinhas, parabéns, feliz ano novo, flores com cheiro de morte. Sempre pensou em morte no dia do seu aniversário enquanto andava em meio às rosas rejeitadas pela rainha do mar.

E agora eles estão aqui. Ambos, o ano novo e os trinta. Agora ela deveria entender, deveria estar mais de acordo com a sua cabeça que pensa mais do que é saudável. Agora ela poderia, finalmente, fazer planos pro futuro, planos pro amor – especialmente por si mesma. Todo começo de ano era a mesma coisa pra ela porque ela queria acreditar que o ano perdido não importava tanto quando a sua vontade de futuro. Tinha uma chance. Mais uma vez. “Deste ano não passa, vou ter um futuro feliz.”

Esquecia que na vida só existe passado e presente. O futuro era como a felicidade: nada mais do que uma idéia.

Rani Ghazzaoui

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One Response to “Futuro”

  1. nilton lessa costa January 28, 2015 at 9:51 pm #

    muito bom!

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