Archive | May, 2014

Sobre a humanidade, a similaridade e a falta de vontade.

1 May

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Tudo no mundo muda. O tempo todo, mesmo quando cismamos em viver aquela ilusão que aquece o coração por um tempo (não por muito, mas aquece), de que a vida finalmente parou no “futuro”, naquele momento bom que tanto desejamos chegar, conseguir, conquistar; o futuro justifica todas as dores e desamores do presente, mas a verdade é que o futuro não existe, só o que existe no mundo – como conseguimos conhecê-lo – é o agora. O futuro não importa.

Eu me casei com uma pessoa completamente diferente de mim. Ele acredita na vida, na felicidade e , pasmem, até no ser humano. Não vou mentir, é exaustivo fingir que eu me preocupo tanto com a tranquilidade, e com a normalidade, e com toda a formalidade do mundo quanto ele, ou o quanto ele gostaria que eu me preocupasse. Ele me disse outro dia: “Ser como você é, é estar em guerra com o mundo e com si mesmo constantemente”. E, embora eu saiba que o comentário, pra ele, foi negativo, pra mim foi um adjetivo positivo. Adjetive-me de mutação e eu vou gritar o hino de Raul como se não houvesse amanhã, inclusive, porque como já disse antes, o amanhã não existe.

Se estou cansada? Sim, sempre. Uma cabeça barulhenta tira da vida de uma pessoa muitas coisas que eu acredito serem importantes. Gente conformada ou conformista nunca sofre de ansiedade. Ansiedade é a doença dos criativos, dos desinibidos, dos causadores de causo, dos loucos. Mas acontece que há anos eu desisti de buscar sanidade porque, pra mim, linearidade é tão apetitosa quanto um sanduíche de cocô. Equilíbrio ajuda a respirar, mas não enxergar o barulho à sua volta faz com que a sua existência como ser pensante seja diminuída à quase nada. E se era pra ser árvore, pra que então estou aqui lidando com gente que não sabe a diferença entre religião e alienação? De opinião e de imposição? De homossexualidade e escolha? De guerra e de realidade? Pra que, meu Deus, se nasci pra ser planta e fazer fotossíntese, estou eu aqui, correndo na esteira dessa vida pra queimar a única coisa que realmente é prazeroza nesse cazzo (chocolate, claro), e passando cremes caros nas rugas que tentamos esconder porque a nossa sociedade acha sabedoria desimportante, mas se sua bunda for dura com cinquenta anos você venceu na vida?

Se estou cansada? É claro que estou cansada, porra, viver no meio de gente alienada, tapada, chata e que passa a vida planejando o casamento perfeito e a casa de cerquinhas brancas com o namoradinho de colégio é mais boçalidade do que o meu cérebro concordou em aguentar pra viver em sociedade. E a nossa, eu te conto, tá falida.

Às vezes a ansiedade não te deixa respirar direito, ou comer direito, ou dormir direito, ou transar direito ou ser você direito, e são nessas horas que eu gostaria do fundo da minha alma escura conseguir sentar a minha bunda cansada no meu tapetinho de yoga e meditar por cinco minutos que fossem. Meditar é privilégio de quem descobriu onde apertar o botão do foda-se até o fundo, e o meu emperra no meio, sempre tem alguma coisa que me fode antes de eu conseguir ligar o foda-se pra ela primeiro.

Eu, que nasci escandalosa e eloquente, eu, que fui sempre a criança que achava idiota conversar com outras crianças, eu, que era a adolescente que achava que beber era idiota e querer ficar loucão era idiota e querer ser igual à todos os seus amigos para ser popular era idiota, eu, que não entendo gente que só funciona em grupos, essa disformidade que é se justificar como indivíduo somente quando há um coletivo que te explique, eu, sozinha, me vejo colocada nessa prisão moral que é viver num país que parou no tempo. E toda manhã enquanto eu tomo meu café, tenho que ver fotos grotescas de uma realeza ativa em pleno século 21 estampadas no meu jornal. A plebe assiste encantada e muda, as bocas cheias de salsicha, e bacon, e conformidade. Eu não quero me conformar, porque no dia em que eu acreditar que isso é tudo, que a vida é isso aqui, que não tem mais nada pra contestar, pra reclamar, pra discordar, nesse dia cinza com nuvens britânicas, nesse dia frio com ventos do mar do Norte, nesse dia chato com humor amargo de quem nasceu na terra que a natureza abençoou com o seu dia de prisão de ventre, esse vai ser o exato dia em que vocês poderão anunciar, eu morri.

Tudo no mundo muda, eu disse lá no começo. O problema não é o mundo, porque ele gira, e na natureza, na bioenergia, na filosofia e no espiritualismo tudo está em constante mudança. Nada fica estático. A porra do problema é a antropologia. É o ser humano que só consegue aguentar essa vida de incertezas quando finge que está no controle, que tem um plano, que sabe o que está fazendo. A gente não sabe de nada, nem da metade do nada a gente sabe.

Eu que nasci com preguiça de todo mundo, percebo que a cada ano que passa só fica pior. Vocês, seres humanos enquadrados, não me convém, não me apetecem, não me entretém. A vida tá tão chata que até pra amar outra pessoa tem burocracia: se vocês partilham do mesmo tipo de genitália então, afe.

Tô com preguiça. Tô sem saco. Queria menos extremismos e mais eloqüência. Queria menos casamentos por comodidade e mais crianças sendo educadas pra pensarem por si mesmas. Queria mais Hilda Hilst e menos Paulo Coelho. Queria meditar, mas não consegui e vim aqui escrever este texto cheio de inconformidade. Queria poder ter nascido com o direito de viver pelo simples fato de, mas nasci num mundo capitalista que nos faz escravos do dinheiro até quando já somos muito velhos pra aproveitar qualquer coisa dessa vida.

Queria que fosse Sexta mais ainda é Quinta e eu tenho que voltar a trabalhar.

Rani Ghazzaoui

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