Archive | January, 2014

Sofrer ou sorrir?

14 Jan

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Já dizia a minha mãe “De pensar morreu o burro”, mas por ser burra, inclusive, eu nunca dei ouvidos e continuei pensando muito, sobre tudo, a toda hora, sem descanso pra cabeça que maquina planos mirabolantes para coisas que a vida muito provavelmente nem vai me pedir uma posição a respeito.

Você é tão diferente de mim. Se faz chuva, se faz sol, se há seca, ou fome, ou vontade não saciada, não importa, nada parece atrapalhar a sua serenidade, o seu contentamento com a vida, a sua alegria tão sincera que chega a ser irritante, incompreensível. Mais incompreensível, inclusive, é a felicidade que eu sinto, só por saber que você é tão feliz, e a tristeza que me dá quando, sem perceber, eu esfrego a minha tristeza no seu sorriso, e ele fica sem aparecer por alguns dias e nossas escuridões finalmente se encontram, sinuosas e assustadoramente simétricas.

Eu fico aqui mentindo pra mim mesma, mentindo pra você, te dizendo que a sua felicidade simples faz de você alguém desinteressante, bobo. Fico aqui falando a toda hora, me fazendo ser tão importante, falo tanto das minhas qualidades nessa tentativa vencida de justificar a minha falta de amor pelas coisas, a minha intensa dor  que me consome desde o dia que eu pude entender o que é dor, esse oco dentro do meu peito que não me deixa completar a minha existência porque eu tenho tanta sede de controlar tudo, tanta vontade de perfeição, tanta mania de nunca estar assim como você, simplesmente satisfeito por estar aqui.

Mas a minha absoluta certeza de mim mesma é mentira, não me dê ouvidos, não se engane.

Os criativos esquizofrênicos da nossa geração fizeram porque fizeram e o resultado está aí, a ansiedade foi mesmo glamurizada. Woody Allen venceu.

E foi quando eu vi que a vida era feita de escolhas, que percebi quais eram as minhas: Ser fútil ou intelectual? Marombada ou anoréxica? De direita ou de esquerda? Ser vegan ou ser blogueira de moda? Yogui ou hard core? Fazer meditação ou alimentar a gastrite com ódio, vinganças e frituras deliciosas? Ser classe média com orgulho (“Born and raised, yo”) ou defender o comunismo maciço que dorme sereno na parte mais espaçosa do meu coração?

Pra todos os meus dilemas sempre existiu uma única resposta constante: decidi ser ansiosa. Decidi pensar sobre tudo o tempo inteiro, mudar de idéia como mudam as estações do ano num mesmo dia em São Paulo, decidi que não importa o quanto eu sofra no processo, o intuito dessa vida não é ser feliz porra nenhuma, mas sim entender porque cazzo é que fomos colocados nessa bola azul tão bonita, e fomos dados todas as ferramentas para sobrevivermos em harmonia e, mesmo assim, vivemos em descontentamento, vazios, em guerra, em desarmonia, ansiosamente buscando por respostas pra perguntas que fomos nós mesmos – os gênios – que inventaram.

Você me inspira, e eu tenho vergonha de admitir que talvez eu não seja assim, tão complexa como o meu ego gostaria que eu fosse e que, pela primeira vez na minha vida, alguma coisa realmente faz sentido.

E a sua simplicidade é a maior beleza que meus olhos já viram neste planeta; ela é mais mágica do que adormecer ao sol morno deitada na areia fofa da minha praia preferida, e é mais real do que todas as minhas tentativas de explicar em palavras qualquer uma das minhas quatrocentas mil emoções que eu sinto repetidamente todos os dias da minha vida, desde que eu nasci.

Você é real. Sua vida é real. Seus problemas são reais. Sua existência é real. E você é feliz, e pronto.

E você me diz todas as noites baixinho, “Só quem precisa te aceitar é você.”, e eu fico pensando em como eu trocaria todas as minhas glamurosas esquizofrenias só pra ser um pouco mais parecida com você, assim, simplesmente feliz.

Enquanto eu tento preencher os buracos da minha alma com toda essa baboseira, com toda essa literatura, com todo esse cinema europeu e todas essas pessoas que são assim, tão loucas, ansiosas, irônicas e depressivas como eu, você está aí, sempre sorrindo.

Eu passo todo o meu tempo julgando a sua serenidade, tão preocupada com os porquês, e a vida continua passando por mim. E a ironia maior de todas é que a burra aqui fui sempre eu mesma. Mesmo.

Rani Ghazzaoui

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