Archive | October, 2013

Não era dele

30 Oct

love

Antes dele, ela existia. Existia diferente, existia mais doce. Ele foi embora há tanto tempo que seu rosto já não tinha mais formato, sua voz não lembrava mais nenhum som e sua verdade já não fazia parte nenhuma da vida dela. Ela se libertou daquilo tudo, daquele passado, se libertou dele. Depois de anos, depois de tanta coisa errada que deixou que ele fizesse com ela. Mas mesmo assim, mesmo sendo póstumo, mesmo sendo indolor há tanto tempo, mesmo sendo, inclusive, extremamente desimportante agora, o coração dela mudou inteiro por dentro, ficou mais escuro, mais amargo e mais sujo por conta da falta de amor que ela sentiu por todos os anos que precisava ter sido amada por ele.

No fundo ela sabia que, à essa altura, já não era nem mais justo colocar toda a culpa nele. Os anos passaram e a memória dele sumiu, o que sobrou foi o fantasma que agora vive dentro dela, o fantasma que se alimenta das suas inseguranças plantadas e faz com que ela guarde com todos os dedos, e unhas e venenos seus sentimentos pra que ninguém possa mais uma vez usá-los contra ela. Os resquícios ficaram não porque ele ainda fazia parte dela, eles estavam ali porque, é verdade, ela mudou pra sempre.

E toda vez que ela tentava se lembrar de como era enxergar o mundo com olhos mais infantis – aqueles que esperam tudo do mundo, tudo das coisas, tudo de qualquer pessoa porque, de verdade, acreditam no bem – ela já não conseguia; era impossível não jogar a culpa diretamente pra ele, o grande monstro dentro do seu armário chamado passado, impossível não torcer o seu nome dentro da boca, porque tinha jurado nunca mais o repetir, prometido a si mesma que nunca mais daria a ele o prazer de fazer parte da vida dela, dos seus pensamentos, do seu amor e nem da sua raiva. A única grande certeza é que dela ele já não merecia mais nada, nunca.

Todo dia então ela olhava seu rosto mais velho no espelho. Examinava cada linha, cada traço, cada resquício de familiaridade, de lembrança, de reconciliação do seu gesto com seu sentir. Fisicamente quase nada mudou de lá pra cá, sua genética tinha sempre sido delicada com ela, desde pequena, e os anos iam se empilhando levemente em seu rosto que ainda tinha, fisicamente, a capacidade de se contorcer à cada emoção. Mas quando ela olhava fundo, se sentia como se não houvesse ninguém em casa, parecia que, há tempos, tivesse fugido de si mesma e na frente daquele espelho só ficou a carcaça, aquele corpo vazio que imita uma vida que um dia ela tinha sonhado ter.

Amores vieram depois dele, mas ela nunca conseguiu senti-los. Não de verdade, não como se deve.

Toda vez que ela tinha um pesadelo era o rosto dele, roubando dela tudo o que ela sempre supôs ser seu. E a cada relacionamento que ela começava, tentando cantar o mantra de mentiras em sua cabeça de que, dessa vez daria certo, outra parte do seu coração apodrecia, virava enxofre, fedia.

Ela passou tantos anos de sua vida colocando todas as forças do seu amor num amor errado, tantos anos desejando ser amada como ela amava, ser completa junto, entendida, paparicada, desafiada, desafinada, enlouquecida, preenchida e louca de amor, de tesão, de paixão. Mas a paixão que ela viveu, aquele amor que hoje ela conta como sendo o divisor de águas da sua vida emocional, só aconteceu na cabeça dela. E agora quando ela tenta fingir acreditar que está se dando outra chance, ela sabe bem lá no fundo, que toda vez que ela entra agora, ela já entra carregando a derrota, ela passou a se sentir tão mal por si mesma que, antes de tentar acreditar, ela já desistiu.

Ele poderia ser qualquer um. Na verdade, ele foi mesmo qualquer um, um amor barato, bandido, esquecido na quinquilharia que vira aquele espaço do cérebro onde ex namorados, ex amigos e ex chefes se misturam nas mesmas gavetas, empoeirados. O problema dela era guardar tudo, guardar por tanto tempo. O problema era analisar com a lupa tentando achar a solução de um problema que na verdade eram muitos e a resposta era simples.

E ainda que ela encontrasse um amor que desse a ela todas as coisas com as quais ela sempre sonhou, sua vida seria triste. Não porque aquele cara, o mané, não soube a amar direito, mas porque não merece felicidade quem dá de presente a outra pessoa a sua habilidade de se fazer feliz. Ela achava que ela só existia antes dele, mas o que existiu antes, de verdade, foi um grande vazio que precisava ser ocupado por alguém para levar a culpa por ela nunca ter conseguido se amar, se aceitar, se moldar em qualquer formato que ela decidisse precisar ser.

E um dia quem sabe o amor poderia sim ser o líquido que preencheria tudo, mas só quando a jorrada viesse de dentro dela.

Rani Ghazzaoui

Não existe amor na Escócia

7 Oct

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Resolvi curar a minha doença com o único remédio que eu sei usar. Porque a ansiedade de um começo pra uma vida que já começou não me deixa dormir, sorrir ou respirar direito desde que me dei conta que, enquanto eu perco tempo imaginando como minha vida vai ser ótima amanhã, a minha vida hoje vai passando sem volta, sem que eu nem perceba que ela está indo embora pela janela que eu mantive aberta, pra ver a verdade alheia e esquecer a importância da minha. Todo mundo por aí tem uma receita pra ansiedade, todo mundo acha que sabe o que é melhor pro outro apesar de nunca conseguir resolver o quebra cabeça que lhe pertence; desatar nó dos outros parece sempre mais fácil já que nunca é feito mesmo por nossas mãos.

Lá fora faz frio, lá fora faz meses que só chove, que só é cinza, que só é fosco, só é sujo. Meu cérebro tenta acompanhar e fica escuro também, analisando com toda nota tétrica dentro de mim as situações corriqueiras, me fazendo enxergar tudo como um sinal de que a vida é uma merda bem grande, e fedida, e chuvosa num dia frio nesse lado monótono do mundo.

O estômago vai virando e dando nós, tentando digerir (como se fosse um hambúrguer bem gorduroso, daqueles que só o cheiro ataca a gastrite) as emoções sem nome que nem os melhores psicanalistas do mundo conseguiram nomear. O coração tenta parelhar com a respiração – que é breve e pouca – e começa a bater desenfreado, como o carro chefe da escola de samba, que mostra quem manda naquela porra. Se você não controlar o seu estômago, que controla sua respiração, seu coração vai bater e bater e bater sem parar, até você entender que você está vivo, muito vivo e que ser assim tão sentimental só vai servir pra te matar aos pouquinhos, principalmente nesse lado tão gelado do mundo.

Sabe aquela história de que quando o escritor anda feliz ele não consegue escrever? Às vezes quando ele está muito triste, ou descompassado, ou perdido na nuvem negra que vira de vez em quando a cabeça dos criativos, ele também não consegue já que o papel – para ele – é a final confirmação da idéia. Uma vez que está escrito, já era, existe mesmo, é de verdade. E muitas vezes é mais fácil se juntar ao time dos que escondem seus demônios – do mundo e de si mesmos -, muitas vezes é mais atrativo ser só mais uma cara feliz na rede social, mais um coxinha do Twitter.

A gente vai vivendo a nossa vida e vai deixando que ela nos mostre coisas sobre nós que nunca teríamos percebido sozinhos. Você só descobre o quanto gosta de praia quando vive na neve, só sabe que felicidade está nas pequenas coisas quando as pequenas coisas que você tinha agora já não mais são, só dá valor pro amor, pra amizade e para a família quando cada um deles está em um canto do mundo, e você sabe que nunca mais vai ter concentrado no mesmo fuso horário deste mundo os três outra vez.

Quando me mudei do Brasil, há 6 anos atrás, eu sentia falta da minha família, da comida de casa, dos meus amigos. Com os anos, aprendi a cozinhar, fiz outros amigos e usei a benção que é a internet para manter o contato com a família e os poucos amigos insubstituíveis. Quando eu me mudei eu sentia saudade do externo, do que não me pertencia, do que me completava. Mas hoje, sentada diante da paisagem pitoresca que só uma árvore imóvel, amarelada e com suas folhas ameaçando a cair pode te presentear, a minha solidão é imensa já que nela cabe a maior saudade do mundo, a minha saudade de mim.

Morando na Escócia descobri que comida, amigos, família, música, cultura e todas as outras coisas que eu achava fazerem de mim quem eu sou, são – mesmo que à distância – ajustáveis, fazíveis. Distância é um treco muito louco, mas com certeza te une aos que te amam e te afasta dos que não valiam tanto à pena; ela só agiliza o processo infalível que a vida tem para todos os relacionamentos: ou fica pra sempre, ou vira passado. Mas o sol, só o sol e nada mais, ele sim se provou ser a única coisa que não consigo, não posso e não quero viver sem. Pela primeira vez na vida entendi o motivo daquele exagero, “o astro rei”. Sol te dá cor, te dá energia, te dá calor. Uma vida sem sol é uma vida escura, fria, abandonada.

Meu tempo por aqui ainda não acabou, na verdade não sei quando acaba. O que sei é que no escuro é que decidimos a nossa vida, já que nada nesse mundo é certeza. Pode ser que eu vá amanhã, e pode ser que eu fique por mais algum tempo trabalhando o que é morar dentro de mim sem nenhum desconto da natureza, do cheiro de mar morno e do bem estar geral que só uma noite de verão pode te dar. Pode ser até que meu desgosto generalizado seja fase e que, no dia que eu for embora, eu até sinta saudade do rosto duro, do humor escuro e da chuva sempre à beira de desabar, como as folhas das árvores escocesas no outono.

Queria poder dizer que, quando eu for embora, agradeceria a hospitalidade e apagaria a luz ao sair, mas esta ilha tão fria, cheia de pessoas programadas para não olhar pela janela, nasceu e vai morrer no escuro.

A minha ansiedade é pela claridade.

Rani Ghazzaoui

*photo also by Rani Ghazzaoui, all rights reserved