Archive | March, 2013

Maratona

19 Mar

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Será que a gente nunca cresce? Que os medos e inseguranças que guardamos melhor escondidos do mundo inteiro, não importa quantos anos se tenha, permanecem ali, no fundo da nossa alma, bem guardados e, ainda sempre, existentes?

Você sorri mas seu sorriso é falso, eu sei identificar. Sua boca encontra os ângulos apropriados, seus dentes mordem a vontade, a ânsia, o desespero, a solidão e a amargura, e você continua sorrindo como se a vida sempre sorrisse de volta pra você. Amor é a palavra que assombra, amor é o medo de ter e perder e o medo de não ter e jamais encontrar, amor é sempre busca de sabe-se lá o quê, amor é tão mistificado, tão surreal, tão pra sempre esperado que quem espera jamais consegue sorrir completo já que, sem amor, nenhum sorriso pode mesmo ser feliz.

Ela caiu no chão, suas lágrimas correndo pelas bochechas, o pescoço, a nuca. Caiu e ali ficou esperando a resposta do universo, esperando ouvir um sussurro de compaixão do mundo pra tentar entender como pensa tanto uma cabeça que nem tem motivo pra pensar em nada. Caiu e a queda foi amortecida por todas as outras; agora era tão frequente cair. Olhava em volta de si, lágrimas, lenços de papel, mau amor escorrido pelo chão. Suas lutas pareciam sempre infinitas, não porque ela jamais tivera chegado ao seu objetivo, mas porque como qualquer pessoa compulsiva, ela não conseguia parar de ser triste, mesmo quando ela estava feliz.

Ninguém tem piedade de quem não sente amor por si próprio, mas ela sorria e todo mundo achava que ela era feliz, ninguém tem dó de gente feliz. Ninguém, de um jeito ou de outro, teria dó ou entenderia a dor dela, ninguém jamais entendeu.

Pensava que nascera com alguma disfunção, alguma anomalia jamais encontrada na ciência que a impedisse de abraçar com os dois braços o momento em que a risada de verdade estava acontecendo. Não era depressão ou falta de endorfina, era a eterna mania de querer agarrar tudo muito maior do que em seus braços cabia. Era o desespero por sempre conseguir mais daquilo que a fazia feliz; um pouco apenas jamais seria o suficiente e ela nunca se saciaria já que pra sempre ela passava seus dias apenas querendo mais do que já tinha.

Em algum lugar do mundo – pensava – a solidão deve doer menos, o amor deve ser mais real e a felicidade muito mais plena. Viajou o mundo sem fincar vínculos porque nenhum lugar por onde ela passou conseguiu passar no teste de lugar perfeito para ser feliz. Ou as pessoas eram muito frias, ou muito dadas, ou eram muito ignorantes, ou muito livres, ou o tempo era frio demais ou o calor era de matar. Seguia em frente, estrada a diante, seguia olhando pra todo mundo, à princípio, com olhos de quem queria tudo, de quem podia tudo, sentia tesão por todo mundo pela primeira vez que os via. Mas a obsessão pelo começo, pela faísca, acabava com as chances que ela tinha de eternidade, só que ela nem via. Continuava andando, olhando, buscando por coisas que existiam em sua imaginação que, obviamente, sempre foi maior do que a sinceridade que podia lhe dar a realidade.

Todo mundo olhava pra ela com uma ponta de inveja. Livre. Viajava o mundo, falava muitas línguas, tinha tido todas as cores de cabelos, vestidos e amores possíveis. Cidadã do mundo, dona de si.

Ela deitava em seu chão – onde quer que ele fosse daquela vez – , e se enrolava feito caracol. Um dia iria achar o tom perfeito, a roupa perfeita, o amor perfeito. Um dia iria achar o lugar do mundo, o perfeito, e aí sim iria parar, perfeita, e se prender.

Solidão dói menos pra quem está sempre correndo.

Rani Ghazzaoui

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