Archive | January, 2013

Sobre a genialidade versus a felicidade. E o sorriso escondido do Facebook.

9 Jan

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Porque a minha cabeça sabe funcionar melhor à noite. Depois do dia, depois de ter visto tudo e inspecionado todos de perto com meus olhos de lupa, magnificando o que pra todos os outros olhares pode ser tão pequeno. Pra mim tudo tem importância. A vida importa demais.

E gente. Adoro ver gente, e odeio ver gente. Adoro ser e odeio ser. Porque a minha cabeça bagunçada enxerga razão nas coisas mais absurdas e fica pensando que se minha razão é distorcida eu, então, não faço parte desse mundo de razões retilíneas, pelo menos não completamente. Porque eu gosto mesmo de gente incompleta. Daquelas que precisam de muita cor, dor, música, poesia e amor pra mais ou menos se inteirar. A vida não é completa, mas é inteira.

Mais um ano começa e com ele as esperanças de todo mundo que vive nele. Esperança de verdade, de sentimento e sensação de verdade. Vontade daquele beijo que nunca deram, da viagem que nunca fizeram, do amor que nunca viveram. Mas vontade não passa só de ter. E sentados na frente da tela que separa quem são de quem eles gostariam de ser, as pessoas da minha geração deixam as vontades serem mortas pela foto alheia, juntando recordações que não são suas. A pessoa da foto sorri, mas três segundos antes daquela foto ser tirada, com Noronha ao fundo, ela se sentiu infeliz. Todo mundo quer ser quem não é porque abraçar quem se é, de verdade, é um abraço cheio de espinhos. Espinhos internos. E dói.

Mas eu olho em volta. Uns tem fé em Deus, outros têm fé na bolsa cara que carregam, outros, fé na espiritualidade do desapego que acreditam ter. Toda fé é cega, mas todos precisam da sua. Ela é famosa porque transou e gravou e vendeu, mas aposto que não gozou. Ele é famoso porque cantou o hino de Deus, porque musicalizou a bíblia e porque mostrou que padre pode ser descolado. Aposto que enquanto o sucesso sobe à cabeça, nem rezar ele não reza. O ser humano é egoísta. E narcisista. Vaidoso que só ele.

Mas eu olho em volta. Não é só ruim, eu sempre acabo pensando. Como a menina que eu vi na reportagem da Vogue: largou tudo nos Estados Unidos e foi viver a vida de verdade no Quênia. Mas aquela vida nem era dela. Ela não se importou, porque se importar com o que estava errado era, pra ela, mais importante do que celebrar 4 de Julho e ter mais de 500 canais de TV à cabo. Ou daquela velhinha italiana que, um dia quando eu fui esquecida por umas duas horas na maca de um hospital público em Sidney, deixou a sua própria filha sozinha pra assegurar que a ‘bambina’ aqui fosse atendida logo porque eu estava passando muito mal. Ela falava e eu pensava ‘É assim mesmo, nonna. Eu passo mal sempre aqui dentro, mas ninguém entende o que eu preciso pra não doer.’

O mundo sorri pra gente o tempo todo. Alguns ignoram porque é mais legal ser triste do que feliz; todos os gênios foram ranzinzas, solteirões ou esquizofrênicos e todo mundo gostaria de enfiar o dedo até o fundo do pote e lamber gostoso a genialidade. Não vêm pra todos, e paga-se o preço, mas aqui no nosso mundo, dando pra ser comprado, está ótimo. Outros sorriem de volta, mas sorriem demais porque, na verdade, não entendem muito do que acontece em volta. Eles compram os DVDs das Kardashian e do Padre Marcelo. Não é nem que estão no mundo a passeio, é que estão pra fazer volume, pra sintetizar a vida, pra fazer que ela seja tri dimensional.

Eu olho tanto, olho tudo. Meus olhos cansam mas não dormem porque quem dorme perde tempo enquanto poderia estar sendo genial. Meus ídolos mudam tanto, não nas suas existências, mas dentro da minha cabeça porque, em algum determinado momento, todo mundo passa a ser idiota pra mim. Eu sou facilmente decepcionável, poderia dizer. Ou vai ver sou muito detalhista, não sei.

Meus olhos incham toda noite, porque toda noite é a mesma coisa. Não consigo dormir, está muito frio, está muito calor, está muito rápido, está muito devagar, está muito moderno, está muito careta, está muito liberal, está muito conservador, está muito claro, está muito escuro, está muito cedo, está muito tarde, está muito tudo, está muito nada. Meus olhos se incham, se apertam, mas nunca descansam. Minha cabeça nunca descansa e eu sinto um pouco de inveja da espiritualista que vive de luz do sol e não depila as pernas, ou do bitolado que põe seu descanso na mão de Jesus, e descansa. Mas o meu Narcizo, ao perceber o ataque da falta de vaidade, sai da casinha correndo e eu não me dou o direito de enfeiar ao mesmo tempo que meu Einstein sai de trás da pilha de livros que eu ainda preciso ler pra me contar que nem o próprio Dostoiévski se aguentava, mas que respeito e genialidade vêm dos outros, daqueles que não sabem, não querem ou não conseguem entender. Meu gênio, como aquele do Wilde, não me deixa deixar de entender nada, nunca.

O ano passou, mais um. Estou aqui acumulando anos de experiências picadas, de sonhos realizados, de espera pelo gozo supremo que você segura, contorce, controla e, quando ele vem, nem foi tão legal assim.

Mas negatividade, pra mim, sempre foi charme, a alma do negócio. Só que tem dias que eu tenho preguiça de ser a minha persona da frente da tela do computador. Preguiça de fingir que tudo me enche o saco, quando às vezes não custa mais do que aquela música, com aquele cheiro pra fazer eu achar o mundo, as flores, os cachorrinhos e os bebês lindos.

2013. Ano ímpar – o que quer que isso queira significar pra numerologia, pra feitiçaria ou praqueles que apenas querem acreditar. Vou fazer cara feia e julgar tudo e todos o tempo todo neste ano, não tenha dúvida. Mas vou assim, escondendo meu sorriso mais feliz do Facebook porque ainda acho que a parte mais feliz da minha realidade não pode ser simplesmente compartilhada assim, tão fácil de ser roubada por ninguém, alguém ou todo mundo. Afinal do outro lado da tela tem de tudo. Tudo mesmo. Desde quem finge saber de arte aos que acham Paulo Coelho gênio, e Deus me livre meu sorriso acabar no rosto de alguém assim.

Ano novo, eu entrei. Estou indo. Mas não me espere, mesmo que eu tropece e faça birra porque as outras trilhões de pessoas do mundo não são exatamente como eu quero que elas sejam, não espere, siga em frente levando tudo e todos, acariciando uns e maltratando outros, sendo justo, injusto, verão e inverno, triste e feliz. Segue, ano, vai com fé e pula pra lá; e pode deixar que eu te alcanço.

Agora, preciso de um cochilo.

Rani Ghazzaoui

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