Archive | November, 2012

Das dores: Maria, a óbvia.

22 Nov

Foi susto. E suspiro. Tudo junto naquela sensação tão conhecida pelos ansiosos, o rosto avermelha, o pescoço fica quente, o coração quase para, congelado, e o estômago produz, revira, faz barulho e dói. Nada na vida é bom quando o estômago dói daquele jeito que o dela doía toda vez que a vida resolvia não concordar com ela nos detalhes. A vida é mesmo cheia deles.

Ela andou até a porta, apoiou a cabeça no batente. Pensou que se ele não voltasse não tinha problema porque, de verdade, nem ela mesmo ali estava. Perdida como cachorro em mudança – se desculpando pelo trocadilho infame – já que humor era só o que restava para ser usado de massa corrida naquele fragmento da vida dela.

‘Sorria’, ele falava baixinho. Os dentes dela rangiam de raiva de não sabia o quê. ‘Seja mais leve’, ‘Não fique tão estressada’, ‘Seja otimista’, ‘Acredite na vida, na sorte, no amor, nas pessoas’. Mas ela não acreditava em nada, nem em credo, e seu ceticismo era claro, alto e doloroso: a vida nunca tinha sido muito fácil pra ela e, por esse exato motivo, aceitar amor incondicional parecia coisa de princesa da Disney, mas ela sempre foi medrosa demais pra montanha russa e ranzinza demais pra fofices como ratinhos vestidos como gentinha. O mundo já tinha muita gentinha como era e ela só pensava em pisar nos ratos e sair correndo.

Mas do lado de lá da relação era tudo diferente. Ele não. Não pra tudo o que pudesse ser negativo, não para o próprio princípio da negação. Não pra tudo o que fosse doloroso, desimportante, desinteressante ou profundo demais que fosse capaz de te deixar pra baixo. Não, pra quem dizia não, pra quem queria ter muita razão, não pra tudo o que causasse complicações e aborrecimentos, e dor. Não pra dor. Pra ele, dor não era necessária pro crescimento, pro amadurecimento, pra nada.

Mas ela era profunda, tinha que ser profunda, e doía sempre, era feita de doer, não sabia ser se não fosse poço fundo de fortes emoções. Ela era a piada do cúmulo da dor, e escorregava no topogã de giletes pra piscina de álcool como atleta olímpico.

E ela sentava ali, enquanto ele passava pela vida de leve, pensando onde foi que a versão masculina da Pollyana do livro decidiu que seria bom se relacionar com a Maria do Bairro. Aquela Maria que sofre, e que chora, e que namora, e que separa, e que chora mais um pouco, e que tem inimigos, e que tem amigos que viram inimigos, e que tapa o sol com a peneira, e sofre mais, e briga com a família, e faz as pazes com os amigos que viraram inimigos, e desfaz as pazes por conta da traição – porque Maria sem traição não seria Maria, assim como não seria Maria sem dor de amor, dor de cotovelo, dor de sabe-se lá o quê – , e sofre mais um pouco, e chora mais um pouco, e sofre tanto que chora mais um tanto e acaba chorando de tanta dor de sofrer as dores que ela mesma causa a si mesma mas que, nem Freud explica porquê, não consegue parar. Ela gosta. Gosta de sofrer, a Maria. Em seu bairro, em seu apartamento, em seu quarto, dentro da sua cabeça bagunçada de mulher à beira de um ataque de nervos do século XXI.

Foi susto. E suspiro. Tudo junto naquela sensação tão conhecida pelos ansiosos, que naquele fragmento de segundo não sabem diferenciar realidade de paranóia, certo de errado, grito de sussurro.

Mas a campainha tocou e ali estava ele, sempre de volta, sempre sorrindo, sempre tão drogado de vida. Ele chegava e o abraço dele era como edredon fofinho numa manhã gelada. Ele sempre voltava mesmo com a mania de abandono dela, com o pessimismo dela, com a vontade insana de chorar a vida porque, na verdade, ela simplesmente nunca se permitiu sorrir. Não inteiro, ela não era inteira, pelo menos não até ele chegar.

E a cada dia que ela passava presa na mentira que ‘é bonito ser triste’, ela esperava –  permitindo a pequena dose de esperança que seu estômago era capaz de digerir – pela chegada dele, toda noite e todo dia que, embora não mudasse por completo quem ela era, a completava e a fazia, meio otimista.

E um dia, ela desejava forte e baixinho pra nenhum cético hipster ouvir e criticar, que todo aquele amargo fosse embora, que toda a raiva, como mágica, acabasse por ali e parasse pra sempre antes que, sem perceber, fosse ela que parasse. Mas desejava tão baixo que, suspeito, queria que nem a sua própria cabeça conseguisse ouvir. A cada vez que pensava em não sofrer nunca mais, o estômago voltava a doer.

Aquela coisa de achar que tristeza é sempre bonito e acabar ficando tristemente feio. E óbvio.

Mas a Maria é louca. E complexa. E obviamente, obviedade, de todas as coisas desse mundo, é a última que Maria vai entender.

Coitada da Maria.

Rani Ghazzaoui

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