Archive | July, 2012

Onomatopéia

27 Jul

Dentro da cabeça dela as memórias vinham aos montes, como enxurrada, acabando com tudo o que ela demorou tanto tempo pra re-erguer, pra superar. Quanto mais ele pedia pra que ela parasse, que não comparasse, que não chorasse e que acreditasse que desta vez seria diferente, mais vontade ela tinha de esfumaçar sua visão com lágrimas, de gritar, de pedir por favor que parasse, que a deixasse em paz.

Este é o problema da pessoa emotiva. Não é que não queira entender, ou enxergar a verdade, ou aceitar a vida pelo simples valor que ela pode ter. O problema de quem sente demais é que, por trás do sentimento, quase sempre há uma cabeça que não pára, uma cabeça que há anos faz psicólogos e pisiquiatras formarem carreira, ganharem dinheiro, serem chamados de doutor. Uma cabeça que pensa o tempo todo, noite e dia, enquanto dorme, come, fala, pensa, lê, assiste televisão, vai ao supermercado, faz prova, trabalha e transa. Nunca pára.

Onze horas, o quê aquilo significou?, meio dia e meio, ele poderia ter ficado com ela mas escolheu ir embora depois de tantos anos, por quê?, uma da tarde, de todas as pessoas que me fizeram mal, você foi a que mais tentou, três e meia, e na adolescência, eu sei, eu era mais magra e tinha menos espinhas, como isso é possível?, quatro e quarenta e dois, preciso ser mais precisa no trabalho, tenho mais de 30 e não consegui ainda ser o quê eu pensava que seria aos 25, sete e vinte dois, não posso comer peixe de novo, é só isso que eu como toda noite, vou virar peixe, vou ter salmonela, vou me entediar comigo mesma e, daí, como é que vou entreter qualquer outra pessoa na minha vida?, oito e quarenta e três, e como é que eu posso saber que ele não vai embora de mim também? O que foi que eu fiz que é tão exepcional que ele resolveu ficar de vez. Será que dessa vez é pra sempre?, onze e dezenove, dorme, dorme, dorme, filha da puta, dorme, que amanhã é tudo de novo e seu corpo precisa de descanso, mas essa sua cabeça nunca deixa.

Avaliando suas emoções e seu passado recente, sabia que poderia ser muito pior. Pelo menos, se conhecendo como se conhecia, sabia que as crises poderiam estar vindo muito menos epaçadas e com muito mais dor envolvida. Mas até aí, isso é o que ela sabe dela, o que ela entende como normalidade porque desde que se entende por gente, passa noites e dias revisitando lugares do seu imaginário que deveriam estar empoeirados servindo apenas, e no máximo, de base de comparação para experiências futuras caso algo desse errado e ela precisasse, então, reavaliar alguma coisa, algum comportamento repetido, alguma linha de raciocínio de erros. Mas não, futucava tanto e com tanta meticulosidade e frequência, que acabava, muitas vezes vivendo no passado mais do que no presente, tentando se convencer de que aprendeu as lições e revivendo ciclicamente todas as coisas que dizia já ter passado. Enquanto isso a vida ia passando.

A vida não é fácil pra ninguém, eu não acho. Mas com certeza há pessoas que gastam muito mais tempo de vida pensando no que poderia ter sido, no que foi, no que será e em todas as coisas que ainda darão certo ou errado. Ao mesmo tempo que pensar demais em tudo faz com que você se conheça melhor do que ninguém – o que jamais pode ser uma coisa ruim, ou pode? – pensar demais também faz com que muitos momentos que deveriam apenas serem vividos, mais nada, sejam estragados por uma forte e incontrolável vontade de analisar o que não precisa de análise, de enfiar certezas onde não haviam dúvidas, de forçar barras consigo mesmo acabando exausto, encucado e, claro, cheio de perguntas sem resposta.

Ainda tenho um pouco de pena de quem não pensa em nada, mas invejo um pouco também a habilidade que os mesmos têm de passar pela vida mais leve. Ignorância pode sim ser uma dádiva. Fico triste, e um pouco chocada também, de ver que muitos outros que pensam, acabam excedendo na dose da dor, da auto flagelação, do tarja preta – que vêm na caixa, no copo ou na cabeça – que imobiliza os pensamentos pra propor algum sossego aos que pensam demais, mas paraliza também toda e qualquer real emoção.

A verdade é que ela, assim como eu, não teve nunca a opção de não pensar em nada. Minha cabeça, desde que eu me lembre, sempre foi bagunçada, colorida, ensurdecedoramente alta. Mas, hoje eu vejo, nada de mim seria o mesmo se eu tivesse passado minha vida toda no silêncio. Sim, eu provavelmente teria chorado muito menos lágrimas, arranjado muito menos brigas, mantido muito mais namorados e feito parte de muito mais turmas de amigos iguais (uns aos outros). Entretanto, tivera eu tido a oportunidade, ou talvez a falta de opção, de não pensar tanto, eu jamais estaria onde estou exatamente agora, dividindo minha vida exatamente com todas as pessoas que eu estou, abraçando meus defeitos nuns dias, e querendo encher a cara deles de porrada no outro, sabendo meus limites, descobrindo que quanto mais velha eu fico, mais eu percebo que eu sempre soube quem eu era, e claro, não fosse essa parafernália toda na minha cabeça, nenhuma das minhas dores, dos meus amores e das minhas análises sobre o mundo e as pessoas poderiam ter virado histórias pra contar. E vamos combinar, eu adoro escrever uma história.

Então é isso, antes louca do que muda. Minha caneta nunca vai parar. Amém.

Rani Ghazzaoui

Realidades absolutas

12 Jul

Você tenta por anos, tenta mais do que deveria. Tenta porque sabe que se não tentar, vão dizer que você não se importa, que não sabe o quê faz, o quê quer. Tenta na esperança de conseguir, mas com aquela fatigada certeza de que não vai sair do mesmo lugar, aquela sensação de angústia e desespero do perdedor que ainda nem jogou.

Todos tentamos, afinal, encontrar aquilo que falta pra que o dia flua melhor. Uma pessoa, disseram as poesias, um outro alguém, acrescentaram os poetas. Mas será que é mesmo só de amor duplo que se constituiu a felicidade? Será mesmo que os solteiros convictos, passados dos tantos anos, se sentem mesmo sozinhos mais do que tranquilos? Será mesmo que o ser humano precisa do abraço que termina no braço do outro para sentir dentro do seu peito a sua própria, pessoal e instranferível circulação pulsar forte pelas veias movendo o corpo à frente?

Ela deitou no peito dele. Os pelinhos de seu peitoral faziam uma cosquinha nada agradável e a pressão dele contra o brinco na orelha dela machucava o começo do pescoço que, por falar em conforto, não estava lá essas coisas na curvatura que o braço dele embaixo da coluna dela fazia. Ela ficou ali deitadinha pensando que queria se posicionar melhor, esticar o pescoço, tirar o brinco e raspar o peito dele. Ficou ali acolhidinha, pequenininha deitada do lado daquele homenzarrão todo musculoso e, com medo de acordar o bruto que levemente dormia, acabava por ficar ela então sem dormir já que, pensou, ‘é verdade, é muito melhor dormir mal do que dormir sem amor’.

Ela quis um emprego melhor, mais amigos, morar num lugar mais cosmopolita. Quis ver o mundo sozinha, quis viajar, falar outras línguas, viver amores de filmes e paixões de novela brega. Quis porque quis ser o que não era e no final acabou percebendo que já o era, já que não sabia realmente se a vida que estava levando ali, naquela casa com ele, naquela cama com ele, naquela cabeça dele era mesmo a vida que ela escolheria, sozinha, pra ela. Mas pensou, ‘é, é verdade, é muito melhor viver mal do que viver sozinha.’

Ela tinha sonhos, planos, tinha vontades. Ele tinha a vida pronta e um lugar nela pra ser preenchido. Ela se encaixou ali meio que sem perceber, se forçava contra as quinas que não tinham seu número e passava seus dias todos colocando seus sonhos atrás dos dele porque pensava ‘é, é verdade, é muito melhor viver os sonhos de alguém do que sonhar sozinha.’

O mundo mudou tanto, estamos num século onde feminismo já nem é o quê, a princípio, se criou para significar. Mulheres conseguiram direitos, empregos, casamentos com direitos iguais e voz ativa em tantos lugares onde antes era só silêncio. Os anos passaram, passarem-se pelas mulheres tantas lutas e o mundo mudou. Mudou mesmo?

De todos os medos, da carreira que talvez nunca deslanche, das rugas que sem erro irão chegar, dos filhos que pretendemos ter, dos amigos que vamos perder, das viagens que talvez nunca façamos, de todas as indagações o medo mais comum é o da falta de amor. Porque ficar sozinho, para uma mulher, é feio, é estranho, é muito feminista.

Lembro dele olhando pra ela, olhos semi abertos, julgadores, quando ela contou que a amiga tinha transado com dois caras ao mesmo tempo pra satisfazer uma fantasia de muitos anos, no aniversário de 30 anos dela. A contra partida foi dura, ‘Não há mulher que tenha 30 ou mais, e seja solteira, que preste.’. Respirou fundo, tossiu, respirou de novo, será que tinha mesmo acabado de escutar aquilo? Será que a frase machista, preconceituosa e tão certa de si tinha mesmo saído da mesma boca que um dia jurou ter se apaixonado por ela por sua inteligência, sua risada solta e sua eterna opinião sobre todo e qualquer assunto?

Num outro cômodo, num outro país, a conversa era outra. Olhou pro amigo e disse ‘Ouviu falar daquele livro que é pornografia pra mulher? Ouvi dizer que a autora é uma baranga… só podia ser mesmo.’. Porque mulher que escreve, que fala, que sente ou produz em aberto qualquer sentimento que ela não deveria sentir, não merece respeito. Se ela fosse bonita, inclusive, ia passar de ‘mulher feia necessitada’ para ‘mulher bonita safada’, não há escape.

Homem pode trair, homem pode falar de aborto, homem pode transar aos 12 anos com a prostituta sendo levado pelo pai, homem pode pedir em casamento e entregar um anel que ele mesmo nunca vai usar ou honrar. E eu, sendo tão raza como todos os homens que descrevi, posso falar todos esses absurdos implicando que todo homem é assim mesmo sabendo que, no meio do muito, sempre há quem entenda a vida melhor.

Ser homem e ser mulher são sim coisas diferentes, sempre vão ser. Fomos feitos do mesmo, mas não muito, somos feitos pra co-existir, pra dar um para o outro o quê, sozinhos, jamais iremos possuir ou produzir; feitos para ser parceiros, colaboradores, amigos, amantes.

Feminismo é a mesma coisa que machismo, eles dizem. Infelizmente, dizem errado. Feminismo não pode ser o mesmo que machismo quando esse representa a segregação e, o outro, a esperança da igualdade possível.

Você tenta por anos, tenta mais do que deveria. Tenta porque sabe que se não tentar, vão dizer que você não se importa, que não sabe o quê faz, o quê quer. Tenta na esperança de conseguir, mas com aquela fatigada certeza de que não vai sair do mesmo lugar, aquela sensação de angústia e desespero do perdedor que ainda nem jogou.

Estar sozinho não significa estar só. Estar num relacionamento não significa estar completo. Mulher pode ser forte e homem pode ser sensível. Me cansa, me indigna e me chateia homens na posição de machão e mulheres na posição de vítima, afinal,  ninguém precisa ser o quê não quer. Amor é bom, mas não é tudo e, infelizmente, amor por si só não segura casal nenhum junto, homo ou heterossexual. União precisa de mais.

Num mundo tão cheio de possibilidades de felicidade, ninguém precisa ficar sozinho, mas pode.  Vergonha pra mim é ser infeliz.

 Rani Ghazzaoui