Archive | April, 2012

Capítulo I

14 Apr

Então será que felicidade tem medida? Que é possível, com uma régua imaginária e muita vontade de acertar os milímitros exatos chegar então àquele lugar que tão poucos conheceram, e quase ninguém acredita existir?

A vida foi rodando loopings desconhecidos pelo último ano. Tudo o que parecia real e seguro se tornou – quero dizer de uma hora pra outra, mas todo mundo sabe que quando uma merda bem grande acontece, a dor de barriga prescedente com certeza anunciou a chegada – estranho, doloroso e errado.

Domingo à noite, aniverário de uma das minhas melhores amigas e tudo o que eu conseguia pensar é que a pedida da minha cama era muito melhor do que a pedida do bar que estaria cheio de pessoas iguais, repetidas. Mas depois de cinco anos num relacionamento que não funcionou desde o primeiro dia mesmo com tanto esforço, parecia estúpido ficar em casa remoendo minhas dores e amarguras de pijama na frente da televisão que – também – só me contava fábulas que eu já sabia.

Calça skinny, camiseta, casaco. Colar, bolsa, cabelo. Maquiagem, brinco, perfume. Bóra.

Toda noite é a mesma noite pra quem está a procura de amor. Toda a noite é a mesma noite pra quem está a procura de sexo. As minhas noites eram, também, todas iguais, mas a única coisa que eu estava tentando encontrar era mim mesma. Quando você passa muito tempo da sua vida vivendo a vida de outra pessoa, seus sonhos, vontades e verdades passam a ser incógnitas e é muito assustador olhar pro espelho e perceber que o reflexo não mostra nada do que você conhece; a pior sensação do mundo não é estar sem ninguém ao seu lado, a sensação mais assustadora de todas é quando você percebe que não tem ninguém lá quando você olha pra dentro.

Andando pra porta de saída com o respiro preso no diafragma, aquela velha bola de cabelo imaginário presa na garganta, hora de ir pra casa, hora de fingir ter tido uma boa noite, hora de sorrir, abanar e sair, à francesa. Quem são essas pessoas? O que as move, por que tudo o que parece cool demais é, na verdade, tão vazio? E por que, então, a necessidade tão grande de pertencer, de fazer parte, de continuar sendo a pessoa que todo mundo sabe quem é, mesmo eu sabendo que, na verdade, nenhum deles nunca vai ter a menor idéia de quem eu realmente sou porque os meus nuances são profundos e difíceis e as pessoas do dia a dia nunca teriam (eu gostaria de dizer profundidade) paciência de tragar e segurar minha fumaça por mais de 2 segundos.

O bêbado dos grandes olhos verdes mais lindos que já vi  anda em minha direção, bebida na não, postura torta, rosto de acordo com o andar. ‘Você é linda’, falou. ‘Você está bêbado’. Cinco minutos de olhares esquisitos e pouca conversa, resolvi mesmo que era hora de ir embora. Pediu meu telefone, recusei. Pediu pra me ver de novo, recusei. Pediu que eu reconsiderasse, recusei. E embora a recusa fosse constante, alguma coisa que pode ter sido vaidade me fez gritar meu nome enquanto eu saía. Nome completo, ‘Me procura no facebook se você realmente estiver interessado’, nossa geração é tão bruscamente romântica.

Cheguei em casa e lá estava o pedido. A partir daí é história, história de busca, de vontade, de negação, de resistência. Mais de um ano se passou e eu ainda não tinha certeza se eu estava preparada para convidar alguém pra dentro da minha vida, não tinha a menor idéia de se existia alguém com inteligência emocional suficiente para entender a bagunça que meu peito virou, as minhas desconfianças, a minha pouca fé nos relacionamentos – pelo menos nos felizes.

Todo mundo sempre me disse, aqueles ditados da vida que todo mundo parece ter tanto conhecimento de causa, que quando menos se espera, o que você sempre esperou acontece. Não sei se foi o fato de eu ter sido ranzinza e tão sincera desde o primeiro dia, não sei se foi o jeito que eu, sem me preocupar com a opinião dele, despi todos os meus demônios, um por um como se ele fosse um antigo amigo e também não sei se foi a minha repulsa pela felicidade que fez com que ele continuasse interessado por mim durante o ano inteiro que eu fiz de todo o possível para empurrar ele pra longe de mim.

Na verdade, pouco importa. Falar que o amor dele por mim me mudou e que mudou o meu amor por mim mesma é clichê e soa tão menos magnífico do que essa história toda é de verdade. Falar que somos almas gêmeas e feitos um para o outro é brega e eu não acredito em amor de conto de fadas porque sempre fui o tipo de pessoa que desenvolveu uma raiva incurável e gratuita por tudo que era meigo ou bonitinho demais. Falar que estou feliz, que nunca me senti assim ou que a química, a risada e a paixão são, de longe, as melhores da minha vida vai fazer parecer que tudo isso não passa das minhas endorfinas falando por mim.

Então resolvi não falar nada. Eu vivi a vida toda procurando, falando e escrevendo sobre amor e neste exato momento da minha história que é documentada em tantos lugares há tantos anos, a única coisa que eu consigo pensar é que, até agora, eu não sabia de absolutamente nada sobre o amor.

Por dez anos ou mais vim escrevendo minha introdução, que comecem agora os capítulos.

 Rani Ghazzaoui