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Ao bom ano e à geração perdida

5 Jan

Me sinto repetitiva. Me sinto como se estivesse, há tantos anos agora, batendo na mesma tecla, tentando me explicar para o mundo, tentando me aceitar, te aceitar e fazer você virar parte de mim por completo, como um novo membro, um terceiro braço e uma conjunção de cérebro e coração na medida certa, como se fosse mesmo possível encontrar num relacionamento o balanço ideal entre a razão e a paixão.

Passei a primeira metade dos meus vinte que não são mais tão poucos assim querendo encontrar encaixe perfeito em uma fôrma que não tinha minha medida, tentando fazer parte de um mundo que não é meu, tentando acreditar que dentro da minha loucura havia aquela sanidade com sensação de contentamento que eu vejo todas as outras pessoas do mundo tendo no final do dia, quando elas apagam as luzes, deitam suas cabeças no travesseiro e decidem que mais fácil do que correr atrás dos sonhos é não sonhar muito alto, pra não se decepcionar.

Mas eu não quero ser assim. Não quero ser desde que decidi, quando ainda era muito pequena pra decidir por mim mesma, que queria ser atriz pra poder então ser a emoção que não era minha. Decidi que quando você pode – mesmo que por poucos segundos – roubar uma vida que não é sua, você pode também de uma certa forma sonhar todos os sonhos do mundo.

Fico prestando atenção na minha geração. Sou tão analítica que saio de casa e esqueço do que estou fazendo na rua já que a rua é o meu maior entretenimento e não há nada que tome a minha atenção mais do que ficar ali, assistindo as pessoas e seus maneirismos, suas faltas de educação,  suas gentilezas, o jeito que andam, como se vestem, os que se esforçam pra parecer desajeitados, os que são charmosos porque não tem jeito mas não sabem. Ver gente me faz acreditar e me faz desacreditar na vida todos os dias.

Acho minha geração covarde. Acho que usamos a sensação de liberdade que nossos pais viveram nos anos 70 para justificar todos os nossos medos de comprometimento, de derrota e de amadurecimento. Acho engraçado – e um pouco triste – olhar em volta de  mim e perceber que as dinâmicas não estão mudando porque já mudaram faz tempo: virou normal e aceitável ser adolescente aos trinte e poucos; estranho mesmo é se comprometer, se colocar em situações desconfortáveis, aceitar desafios que o aplicativo do iPhone não consegue resolver e, claro, difícil mesmo é se apaixonar…. e admitir.

Vivo minha vida pairando sobre a linha que divide os meus amigos caretas dos meus amigos coloridos. Os primeiros, meio moralistinhas, que defendem a vida como as que têm os pais deles, no padrão, família quadradinha, emprego, namoro longo, anel de noivado, filhos, churrasco de domingo, aposentadoria. Os outros tentando ser  mais livres, tentando ser sempre criativos, cortes de cabelo, música e cinema, emprego de final de semana e surfe de dia de semana, amor livre por falta de amor próprio ou por necessidade de qualquer tipo de amor, muita bebida, muita droga, muito vazio preenchido por fotografias de moda e peças de arte penduradas nas paredes, dando a impressão do conhecimento e do sentimento que eles fingem, mas não têm.

Eu fico ali no meio. Não li nenhum livro em 2011, não fiz exercício, não aprendi a dirigir, nem a controlar o meu ciúme, não mudei de emprego, não escrevi meu livro (nem mesmo escrevi o tanto que eu deveria), não cumpri minhas metas do dia 31 do outro ano porque, na realidade, a vida vai passando e você tem que ir vivendo, sem manual.

Não tenho medo do futuro, nem da velhice. Mas nessa virada de ano percebi que a vida está passando muito rápido por mim enquanto eu passo meus dias olhando apenas a minha volta, especulando o porquê dos trejeitos dos outros quando eu deveria estar, na verdade, vivendo mais o que está inacabado dentro de mim. Meu medo não é de estar com quase 26, meu medo é de estar com quase 26 e ser irrelevante, desimportante, não ter conquistado nada que eu pensei que teria há dez anos atrás. Meu medo é nunca mais ter a possibilidade de subir num palco e roubar um sonho, de nunca conseguir assinar meu nome na contracapa de um livro, de perceber que enquanto eu moro fora do Brasil há anos, minha família também está envelhecendo e eu, por mais que tenha todos os aplicativos da tecnologia para manter contato, não estou lá e nunca mais vou ganhar estes anos de volta.

Todo final de ano é a mesma coisa. Um dia não muda nada, é só mais uma vez que o sol viu a gente passar, repetitivos. Minhas vontades de começo de ano são sempre as mesmas também, quero ser melhor do que fui, quero ser o que não consegui ser, quero ser quem não sou.

2012 veio e para aqueles que estão à espera do apocalipse eu asseguro, do mesmo jeito que Sartre descobriu o inferno nos outros, a única pessoa com o poder de acabar com o seu mundo do jeito que ele existe é você. Não vou perder meu tempo com resoluções esse ano porque quem espera sempre que o ano novo seja o melhor da vida, não deve estar tendo uma vida assim, muito interessante.

Realisticamente, então, vou tentar controlar as ansiedades e esquizofrenias, tentar me preocupar menos, tentar respirar  certo, andar em linha reta e torcer pra que o meu lado careta não proíba a minha criatividade e pra que o meu lado maluco não acabe com as minhas  chances de família, cachorro e churrasco de domingo. E torcer para o melhor. Só isso.

Rani Ghazzaoui

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