Archive | December, 2011

Obrigada, canalha.

7 Dec

Parece que minha cabeça aquietou, emudeceu. Parace que seu rastro está saindo de mim aos poucos, quase me deixando acreditar que nunca mais vou sentir o gosto amargo do seu amor errado descendo reto pela minha garganta, me fazendo burra, surda, cega e mentirosa. Dois corpos caíram daquele edifício no dia que eu resolvi que nenhuma estrutura reforçada teria força suficiente pra segurar um amor que, há tanto tempo, já estava desmoronando.

Você foi, bem devagar, somando em mim medos e angústias, demônios que não sei se vão me deixar tão cedo, tão logo, nunca. Saí por aí despedaçada, agachada no meio da rua procurando por aquele pedaço de dignidade que você não só roubou como, também, jogou fora.

Mas aí eu parei. Parei, sentei, fumei um cigarro imaginário e li esse texto aí de cima. Achei brega. Achei anos noventa. Achei que sofrer por você estava cafona, estava fora de moda, não fazia sentido nenhum. Achei (e ainda acho) que tudo o que vivemos foi bom e foi válido, mas entendi nesse ano que passou que  nem todo o amor idealizado do mundo inteiro unido numa só bola gigante de vontade seria suficiente pra transformar os meus sonhos pra gente em alguma coisa que pudesse se concretizar na realidade; porque na realidade – e todo mundo que nos conhece, sabe – nós somos diferentes demais pra conseguir fazer uma mistura consistente.

Passei um ano inteiro fazendo toda a festa que me cabia, correndo de um lado pro outro – fazendo uso do termo correr em espanhól neste trecho aqui. Um ano tentando me justificar como pessoa, justificar minha abdicação de poder da minha própria vida, me sentindo de novo como se eu fosse aquela menina de 15 anos que um dia acordou com toda essa vontade de personalidade dentro de si e percebeu que era possível sim escolher quem a gente quer ser no mundo.

No fundo, eu acho, que eu deveria te agradecer. Não por você ter sido ruim, insensível, maldoso, frio, calculista, covarde ou infiél, não por isso. Mas por ter me mostrado, de uma certa forma, que muito embora você tenha usado os quatro últimos anos das nossas vidas pra destruir a minha como eu a conhecia antes, eu ainda fui capaz de sair do seu lado – ainda que incompleta – não destruída. Tenho que te agradecer porque o seu medo de se entregar para o amor total não acabou com a minha vontade de acreditar nele. E tenho que te agradecer também por – através de um método cruel – ter me ensinado que, na vida, é preciso se ter cautela.

Se hoje eu sento aqui e consigo olhar pra ele com olhos curiosos e, ao mesmo tempo, cuidadosos, eu devo isso a você. Se hoje percebo que ele me quer de uma maneira verdadeira, sem trapaças e com promessas de amor que serão cumpridas, eu devo a você. Se hoje sou capaz de atitudes que nunca fui na minha vida porque você tinha prazer em me fazer insegura e ter me mostrado que numa escala do que eu não quero emocionalmente pra mim, você é um extremo, ele o outro, devo a você também.

Quero dizer que minha vida era boa antes de você, mas que ficou muito melhor depois que você foi embora e, quando eu te desejo felicidade, eu não falo por falar, eu acho mesmo que ambos estamos melhores separados. Mas preciso muito, antes de mais nada, com a maior sinceridade que já tive na minha vida que te saudar por me mostrar que o nosso amor era ruim, mas nem todo amor tem que ser.

E se agora eu posso sentar aqui, tranquila no meu canto, com tempo pra remoldar minha vida do jeito que eu quero e deixar o novo amor entrar pela porta da frente, sem medos, sem neuras e sem comparações com tudo o que um dia foi você, isso eu devo ao seu caráter duvidoso, que me fez querer melhor do meu futuro.

Nossos corpos caíram do prédio e eu acabei sobrevivendo, assim como fez você. Com sorte, suas feridas também fizeram de você uma pessoa melhor, que não vai abusar do amor que alguém derramou no chão pra você passar por ele e sentir ele todo. As minhas (feridas), secaram e viraram lembrança do que funciona ou não pra mim.

A gente só aprecia a felicidade de verdade quando foi até o inferno e voltou, e essa parte passada da minha história é sua.

Obrigada, você. Obrigada, canalha.

Rani Ghazzaoui