Archive | October, 2011

Próximo

1 Oct

Lembra dela há um tempo atrás? Suas escolhas não eram mais dela, seus sonhos ficaram todos esquecidos do mundo, dentro da sua cabeça que a cada dia ficava mais confusa no meio do que ela achava ser certo pra ele, pra ela e pro que ela sempre imaginou como sendo um sonho de futuro. Irônico, seus sonhos e sua capacidade de sonhar foram anulados pela vontade que ela tinha – que sempre teve – de viver um sonho junto com alguém. Não entendia, eu acho, que nenhum sonho em comum com alguém que possa anular todos os seus próprios objetivos, suas vontades pessoais, sua personalidade, seus amigos, seua vida social, suas risadas, seus talentos, sua capacidade de reconhecer seu valor pode ser, então, considerada sonho.

Lembro dela olhando pela janela toda noite, o estômago na boca, o coração na mão e sempre os olhos meio marejados, tirando o foco da verdade já que a água deixa tudo distorcido e, pra ela, enxergar o que estava acontecendo não era uma opção. Ele saía de manhã e voltada tarde da noite, todos os dias. Ela, tinha dias, mal saía da cama tamanha era a sua vontade de se afogar nos seus próprios pensamentos, e desaparecer. Acontece – e eu sei que ela não enxergava -, mesmo estando ali sentada, ela já estava desaparecida há muito tempo.

Lembro que ele a amou um dia, mais do que muito, mais do que tudo. Que olhava pra ela com olhos de adoração, de vontade, desejo e curiosidade, que queria mais do que tudo aquela menina que ele viu virar mulher pra ser, então, a sua. Queria tanto que semeou sem permissão, sua vontade dentro dela. Queria tanto que tomou sua mão prometendo um casamento que nunca ia acontecer porque a vontade dele não era casar-se com ela, mas sim saber que ele podia a qualquer momento, se assim quisesse. Mas lembro, como se fosse hoje, que não importava o quão desajeitado ele fosse pra todos os protocolos do amor, ele ainda assim a amava com tudo o que ele tinha, e mais um pouco. Seu amor era bruto, possessivo e machucava, mas ele a amava.

Lembra? Ela sentou naquela mesma sala tantas  vezes. Olhando pra ele, sorrindo com ele, esperando por ele, duvidando dele, amando ele, acreditando nele, sendo traída por ele. Ela sentou naquela sala segurando seu coração machucado nas mãos dia após dia, esperando uma explicação plausível, esperando mais uma mentira aceitável pra então continuar ali sentada, aceitando da vida muito menos do que ela merecia, mas exatamente o que ela queria.

Lembro, ele mudou. Assim como mudou ela, eu sei. Mas mudou porque não sabia mais como ser espontânea no meio de tantas dúvidas todos os dias, o tempo todo. E mesmo quando ele mal olhava pra ela, lá bem perto do final, ela ainda conseguia ouvir a voz dele a chamando pelo apelido que ele inventou, no primeiro dia que a viu, e pelo qual a chamou por cinco anos seguidos, dia após dia. Mesmo quando ele dormia no sofá por meses, ela ainda conseguia sentir o peso da perna pesada dele bloquando a circulação da perna dela, dormente. Ela sabia o cheiro do banho dele mesmo quando ele só entrava na banheira quando ela não estava em casa porque ele não queria ser perturbado.

Tudo passou, como na vida tudo passa. Ela deu seu grito de liberdade, saiu da casa, mudou a vida, nunca mais olhou pra trás. Mas vez ou outra, eu sei que ambos lembram não do que aconteceu no final de tudo, mas de tudo o que aconteceu enquanto o mundo todo não importava e nada era mais importante do que chamar um ao outro pelo apelido carinhoso que ninguém mais tinha, só eles.

Lembranças são pra vida toda, assim como cicatrizes. O grande lance é que atrás de uma cicatriz, sempre há uma história que, embora dolorida, não precisa ser necessariamente toda ruim.

Hoje lembrei dele, lembrei dela e lembrei da gente naquele começo, naquele meio e, por incrível que pareça, não lembrei do fim pela primeira vez. Chorei um pouco, pela primeira vez depois de meses. Sete. Mas sorri depois porque percebi que lembrar de você e sorrir te classifica, de agora em diante e pra sempre, como lembrança, nunca mais como presente. E no passado – porque eu posso selecionar – é impossível que você me machuque, pelo menos não de novo.

Não te quero no meu presente, tampouco no meu futuro e não sinto sua falta, de verdade. Mas fico feliz de perceber que lembrar de você, no passado, me faz sorrir já que naquele tempo que agora não nos pertence mais, ela chorou demais por você… e por mim.

Você que um dia foi minha vida, hoje na minha é, finalmente, só uma lembrança. E eu, agora, posso virar a página porque finalmente estou pronta pra amar de novo. Próximo.

Rani Ghazzaoui

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