Archive | July, 2011

Amor não

27 Jul

Tudo aqui dentro morreu um pouco, pra renascer. Meus jeitos antigos eu perdi e e não sei onde – nem se quero – encontrá-los de novo. A vida passou tão rápido desde aquele primeiro dia em que eu vi em você a chance de resolução pra todos os problemas que eu ainda nem imaginava que teria.

Ando na rua todo dia completa, tudo é meu, tudo é novo, a solidão se encheu de alguma coisa que minha constante metáfora pendurada no pescoço nem consegue explicar. Não sei mais o seu cheiro, pouco penso no seu rosto mas por algum motivo que eu desconheço, a vontade de entrelaçar minhas pernas em outras ainda persiste. Tropeço no caminho porque preciso de parada, nunca consigo chegar. Esbarro em gente que não devia, chuto obstáculos porque sou (estou) muito necessitada pra enxergá-los. Perto da minha vontade infinita de amor supremo, a minha visão periférica é muito pobre, já que fica muito focada no objetivo impossível, lá no final da rua da minha vida, na qual você foi o único morador por tanto tempo.

E apesar da vontade que resolve aprecer às vezes, desisti de – em linhas gerais – acreditar em amor eterno porque aprendi da pior maneira possível que eternidade é pra quem tem tempo sobrando, e a nossa vida é muito curta. Quero a minha cama vazia de manhã porque estou cheia de mim, mas à noite eu quero curvas perfeitas, completas, queria alguém que me completasse com um abraço que conseguisse ser mais perfeito do que foi o nosso, um dia. Fico querendo e tendo o calor de madrugada, roubando a coberta e por aquele curto período de  8 horas ou menos, encontrando um encaixe não perfeito, mas que dê pro gasto até que, pela manhã, se gaste.

E que o sexo fosse melhor. Queria alguém com um braço igual ao seu, mas com a cabeça muito diferente. Alguém que me amasse como você me amou no começo, lembra? Mas que fosse mais profundo, mais sensível, mais namorado. Queria alguém que tivesse todas as suas qualidades que hoje eu quase já não tenho lembrança, e nenhum dos seus defeitos que, infelizmente, são tudo o que se liga a você quando penso na gente. Queria alguém que se vestisse como eu gosto, do jeito que fazem todos aqueles que vão embora pela manhã sem eu nem ao menos ter que pedir. Queria tanto que parece que estou montando um look completo, quase um patch work de peças avulsas daqueles que vieram e se foram, deixando uma camisa, um relógio ou uma corrente pra trás. Muito acessório e pouca lembrança.

Te vi outro dia pela janela, lá estava você fazendo as mesmas coisas, com a mesma barba mal feita que fui eu que te ensinei a deixar no rosto. Estava lá você com as suas roupas que fui eu quem escolhi, sorrindo um sorriso que eu conheço bem, sei exatamente a distância do seu lábio à gengiva aos dentes. Sei os milímetros. Lá estava você, exatamente do jeito que eu deixei, através daquela mesma janela de vidro, parado no tempo. E eu sei que você vai continuar lá, fazendo os mesmos movimentos que eu já sei com as suas mãos machucadas pelo tanto que você cutuca tudo com elas. Eu te mudei e você não vai mudar porque é assim que você sabe ser, contentando-se naquela medianidade, mediocridade que – pra mim – não dá tesão porque é justamente na certeza das coisas que a gente se acostuma a fazer de olhos fechados que o mundo deixa, então, de ser visto.

Eu fui embora de você e, agora, eu mando todo mundo embora de mim porque decidi que quero ser uma rua de passagem ao invés de uma viela sem saída. Um dia quem sabe alguém que goste de cinema, de arte e de música boa chegue aqui e, meio que sem dar muita bandeira, comece a cobrir os postes com fotos de coisas e pessoas incríveis, escrevendo no chão cartas de amor não brega. Talvez ele chegue e traga pessoas pra socializar no meio de uma festa colorida e, aí, sem perceber eu vou acabar fechando de novo a rua com árvores e portões flexíveis, pra fazer a comemoração pela vida ser privada.

Quando você abre os braços pra vida, amores de morte perdem o lugar no abraço. Continue sorrindo, mantendo a sua barba e tente achar uma camisa do mesmo tom que tem a de agora quando essa desbotar e eu não estiver mais aí pra escolher outra pra você. Logo, logo – eu sei – você bloqueia outra cabeça, outra casa, outra vida. No meio tempo eu vou estar aberta, livre e olhando tudo o que tem em volta de mim. Nossa felicidade nunca ia ser a mesma, hoje eu vejo, já que seu amor é cheio de bloqueio, e o meu cheio de curiosidade. Sejamos felizes, você explorando o amor de alguém e eu, a vida.

Rani Ghazzaoui

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