Archive | August, 2010

O eu lírico e os culpados

28 Aug

Quantos medos cabem dentro do coração de uma pessoa só? E dentro da cabeça? Quantas paranóias um indivíduo consegue, completamente sozinho, criar e cultivar tão fielmente que acaba por virar prisioneiro das suas próprias invenções, creditando a elas verdades que não existem?

Toda mulher tem um pouco de psicopata, tem um pouco de louca. Toda mulher acha que seus problemas são cíclicos e passa noites em claro tentando achar em traumas do passado a resposta pra pergunta que ela passa dias inteiros repetindo sem resposta nenhuma chegar à galope. Respostas para perguntas criadas por você mesma, que resolveriam aquele problema sério que você mesma inventou, nunca vêm porque não existe ninguém no mundo além de você mesma que seria capaz de inventar tais respostas. A equação e a solução em você, mas você sempre muito complicada pra descomplicar. Você equação do segundo grau, com cálculo de logaritmo e sem calculadora nenhuma ao alcance. Nem você se alcança de tanto que corre por aí procurando resposta pra tudo quanto é coisa.

 Todas as mulheres que moram dentro de mim – e delas eu posso dizer –, nas nuances das minhas trocas de humor e na rápida transição de estilo nas minhas trocas de roupa, têm em comum a coisa mais incomum do mundo: a minha loucura exata. Exata porque enquanto enlouqueço é como se houvesse fora de mim outro eu, que de lírico não tem nada já que passa todos os minutos (ou horas) da minha psicose analisando tudo racionalmente enquanto dentro pode ser raiva fervendo, sangue borbulhando, pulmões cheios, amor brotando, cabeça confusa, coração hiperventilando.

Você diz que é falta do que fazer ou que é muito tempo para pensar. E eu acho engraçado você fingir que a razão é simples assim simplesmente porque você não é capaz de entender; impossível julgar o que não se entende. Acontece que não é exatamente o que eu faço no meu dia que determina quando eu vou deixar de ser eu pra me tornar uma delas, não é porque você merece que eu morra de ciúme que eu respiro rápido todo o ar ao seu redor no minuto em que você chega só pra farejar em que ares andou você, não é porque eu acho que você se compara a tudo o que já passou que acabo te dando o mesmo tratamento de quem só merece ser destratado por mim. Se fosse simples, e se eu soubesse explicar o porquê de tantos detalhes, eu pegaria a sua mão e enrolaria ela em volta da minha cintura pra sempre porque as neuroses todas saem de uma porta que existe no meu teto e todas elas têm a ver com a minha neurose máxima, que é perder você pra sempre.

E aquele dia que eu acordei chorando porque sonhei com o que eu nem queria dizer, eu chorei porque entendi que não eram as outras pessoas que nos ameaçavam, não eram os seus sentimentos que poderiam mudar do dia pra noite e me deixar de supetão, não eram as outras mulheres, os outros homens ou qualquer uma das outras todas possíveis razões. Aquele dia eu chorei soluçando profundo e te abracei tão forte que quase te prendi o ar porque eu percebi que não são as outras coisas, as outras pessoas e nem nada que esteja nesse mundo concretizado. Chorei mais porque as frases se repetem, os parágrafos aumentam e o texto fica a cada minuto mais longo sem eu conseguir admitir pro espelho que não posso apontar dedos de culpa pra ninguém fora do meu próprio espelho. E afinal, me diga, quem é capaz de me salvar de mim?

Não sei quantos medos ou quantas pessoas diferentes vivem ou cabem dentro de mim. Não sei porque eles teimam em ficar mesmo quando eu penso que está tudo resolvido e não sei porque vão embora quando eu acho que está faltando inspiração na minha poesia e um bocadinho de loucura não me faria mal. Não sei se um dia você e todas as outras pessoas vão cansar de todas as mentiras que eu repito de jeitos diferentes há tantos anos pra não perder o meu quinhão de atenção. Não sei explicar essa minha necessidade de tanto me explicar pros outros, que é pra ver se um dia eu me aceito e aceito que por mais que eu sonhe em ser perfeita as minhas imperfeições são exatamente o que fazem de mim uma pessoa que não tem iguais. E o mais engraçado da minha paranóia é que meu maior pavor é justamente esse, de acabar um dia sentada no alto das minhas análises e dos meus medos exatos, vendo de lá de cima da minha crise esculpida à mão você indo embora com alguém absolutamente comum e descomplicadamente normal.

Não são as outras pessoas, não é o que elas possivelmente têm e eu não, não é questão de beleza, não faz relação com o amor que eu sinto, não é uma ofensa à minha inteligência, não diz respeito à minha auto-estima, não é você, não é o que você me diz e nem o que eu ouço. Às vezes a gente não quer encarar a solução de frente, e aceitar que a melhor solução pra um relacionamento disfuncional é terminar tudo pelo bem de todos.

A resposta pra minha crise eterna (e interna) não vai sair de nada, de ninguém, nem de nenhum lugar e vou ser obrigada a usar o clichê de todos os finais e dar um pé na minha própria bunda confusa, lírica e existencialista, para aprender que pensar demais não é defeito, mas pensar demais no que não existe – e logo, não tem solução – é burrice:

– Rani, o problema não é você, sou eu. Vê se trata de ser feliz.

 Rani Ghazzaoui

Quem é ela?

14 Aug

As pessoas falam de vida, de problemas, de amores com a propriedade que só cabe àqueles que são os únicos que sabem de alguma coisa. Desde que eu tenho pouco mais de treze anos, entra ano e sai ano e eu visto a carapuça dessa pessoa que conta com tantos detalhes as batalhas tão duras da sua própria vida que faz, até, com que as outras pessoas acreditem nela. O sofredor, na realidade, é um mentiroso que precisa desesperadamente de atenção. Resolvi ser publicitária porque achei que seria bacana também mentir por profissão então, e passei os quatro anos de faculdade mentindo que a parte da profissão que mais me incomodava era mentir para os outros.

É isso, sendo bem direta, que quero contar pra você. O meu amor por você é a coisa mais verdadeira que já aconteceu na minha vida e por isso mesmo eu passo dia após dia me policiando pra não cair em contradição com aquela mulher por quem você se apaixonou, já que ela era uma mentirosa, mas você não faz a menor idéia. Ou faz? Já não sei muito bem em que degrau dessa escadaria pra verdade você está e isso me deixa mais acordada ainda, olhando ao meu redor o tempo todo, esperando o momento em que você vai olhar pra minha cara e me contar que não me conhece.

Foram anos, muitos anos, moldando a minha personalidade pra ser exatamente do jeito que eu achava que uma mulher incrível devia ser. E se por todo esse tempo eu não deixei ninguém se aproximar demais de mim, é porque eu sempre soube que a pessoa que deitava na minha cama à noite era completamente diferente daquela outra que acordava de manhã. Eu não estava pronta, eu não era pronta, a minha prontidão, a minha articulação e o meu desprendimento de tudo e todos não passavam do meu escudo pra não voltar a ser a menina magrela, de óculos e cabelo armado da quinta série, aquela que todo mundo queria ser amigo porque ela era engraçada e inteligente, mas ninguém podia porque, aos 11 anos, ela ainda não tinha nem seios e nem malícia.

Foi por querer vingar a minha adolescente que sofreu tanto bulling que eu criei a personagem que me levou de lá pra cá, a tantos lugares, por vários anos. Só que essa mulher, a vingativa, passou por lugares que eu não quero que você saiba, porque você é o meu respiro de ser aquilo que eu não sou, só para ser alguém. Você – desde o primeiro dia – olhou pra mim e enxergou quem eu era.

E quando eu rio e falo que você não sabe da missa a metade, que você acha que sabe de tudo, mas que perderia as contas se tentasse contar meus erros, que a minha malícia e maldade vieram em doses de pinguço quando resolveram aparecer depois de tanto tempo sendo apontadas como inexistentes por aquelas crianças malvadas, aquelas meninas peitudas que hoje são todas jovens mulheres de 25 anos com os peitos caídos, eu não sei exatamente se quero que você acredite no que eu estou falando ou se quero que você continue me abraçando segurando o riso pra depois beijar minha testa e falar “Ai, amor, como você é mentirosinha.”. A minha vontade às vezes é falar que sim, que sou mesmo, que eu não tive outra escolha porque esse mundo não entrega escolhas de bandeja para as pessoas que acreditam que ser só bom serve. Mas o seu “mentirosinha” – no diminutivo como você fala todas as palavras quando quer conferir a elas caráter feminino ou de carinho – não carrega nele o fardo que eu quero compartilhar com você.

Tem dias que eu sonho com coisas que você não sabe, com coisas que nem eu sei se realmente foram ou se eu criei. Aí eu acordo e quero ouvir o “mentirosinha” pra eu ainda acreditar que, agora, eu posso de novo ser a menina que, ao invés de ter ficado grávida na sexta série, escrevia diários com histórias que não eram dela, na esperança que algum dia eles fossem publicados e chamados de “romances”.

Ontem, vendo o caso de uma mulher que viveu a vida toda carregando um tumor no rosto, eu ouvi ela dizer que hoje em dia ela já não se importava mais, que ela conseguia ser feliz sendo exatamente quem ela era. Não, a minha adolescente pouco entendida não é o meu tumor, ela é minha cura. O tumor são as pessoas mesquinhas que passam pela vida da gente, que com aquela mania eterna de projetar nos outros todos os medos que eles têm para si próprios acabam mudando a nossa vida (mesmo que por um determinado período de tempo, nada é eterno, afinal.) pra pior.

Mas eu agradeço. Sem eles eu não seria sarcástica, eu não saberia ler tão bem as pessoas e, com certeza, hoje em dia eu continuaria sendo machucada diariamente, como uma tonta, sem saber me defender. Minhas mentiras foram meu escudo, minha defesa, minha casa no meio da bagunça e sim, eu fiquei meio bagunçada com elas e não são os meus 24 anos, mas sim essa angústia de descobrir de novo quem sou eu de verdade que anda deixando minha vida tão maluca.

As pessoas falam de vida, de problemas, de amores com a propriedade que só cabe àqueles que são os únicos que sabem de alguma coisa. Mas problemas todo mundo têm, todo mundo sempre vai ter. Hoje eu aprendi que ser quem eu sou – seja lá quem for – não é um problema e, muito menos uma solução pra nada na minha vida. E, além de tudo isso, eu entendi, olhando pra dentro, pra fora, pros lados e pra você que eu posso ser quem eu quiser porque quando você é uma pessoa que pensa, que ama e que odeia, mudar é preciso, é permitido e, no balanço final da vida, a mudança não caracteriza nenhuma pessoa como mentirosa.

Não sou, nunca fui e não quero ser santa. Me recuso, entretanto, a fazer parte do mal, independente do que mal seja. Vou continuar falando palavrão, me apaixonado e enchendo a casa de corações de papel, maltratando minha mãe às vezes e depois me sentindo escrota e injusta, ainda vou fazer muitos amigos errados,  vou viajar quilômetros por amor aos meus irmãos, aos meus amores. Vou ser assim porque, na verdade, eu já sou tudo isso. Tá tudo errado e tá tudo certo. Tá tudo mudando e tá tudo bem. No final da vida, como eu já disse outras vezes, quero ter um colar de pérolas minhas pra mostrar pros meus netos e, olha só, às vezes eu quero tê-los (os netos), outras não. Daqui há pouco tudo muda, mas eu ainda vou querer estar com você porque, é fato, você me mudou.

Vem cá amor, me chama de “mentirosinha”.

Rani Ghazzaoui