Archive | June, 2010

Sábado à noite, sem programa.

26 Jun

O que será que dói mais, perder um grande amigo ou um grande amor? Porque a gente aprende que, desde que nasce, deve procurar pelo príncipe encantado e, muitas vezes é fato, esse cara nunca vem. E amizades também têm assim, um pouco de amor no contexto. Virar amigo de alguém também tem muito a ver com se apaixonar, com acreditar no que aquela pessoa representa, em quem ela é. Conseguir um amigo fiél, que vai estar do seu lado quando o seu possível príncipe encantado fodeu sua vida ou quando você tem uma crise e não sabe mais – pela milésima vez – o que quer fazer da sua vida, muitas vezes é bem mais complicado do que encontrar amor.

A gente aprende com o tempo que, assim como as fases da nossa vida, os amigos passam às vezes. A sensaçao que dá, inclusive, é que algumas pessoas ficaram presas naquela parcela de passado que nosso cérebro é capaz de lembrar. A sua melhor amiga de primário; uma vez, nas férias, vocês resolveram brincar de cabalereiro e você acabou cortando metade da franja dela na metade da altura da texta – que já não era das menores. Ao invés de chorar, e percebendo que a mãe dela ia querer matar a sua e, possivelmente, vocês não poderiam ser mais amigas, ela sugeriu que você cortasse a sua também. E você cortou. Duas franjas tortas, problema e cumplicidade resolvidos.

Ou a sua melhor amiga do ginásio. Ela estava lá quando você menstruou, quando você se apaixonou pela primeira vez e, pela primeira vez, teve seu coração partido. Ela também estava lá quando você resolveu fugir de casa porque seu pai não te deixou sair à noite porque você ainda não tinha dezoito; mal sabia o seu pai que pra você, quinze era definitivamente o novo dezoito e, era só ele piscar o olho no sofá, que a sua identidade falsa ia passear com sua melhor amiga na Vila Olímpia.

Com sorte, sua melhor amiga do ginásio ainda era sua melhor amiga no colegial e, meio que inevitavelmente com o tanto de hormônios que correm nessa fase, vocês podem ter tido uma briga sem volta ou porque ela achou que você gostava do namorado dela, ou porque ela achou que você era muito mais magra que ela, ou porque, simplesmente, todos os motivos anteriores aconteceram e ela achou que a vida dela, agora, precisava de um rumo que não incluía você. E aí, alguns anos depois ela se arrependeu e resolveu pedir desculpas. Mas aí, veja, aí já era tarde demais porque amizades – assim como amores – são relações interpessoais que precisam não só de carinho, mas também de esforço pra que haja compatibilidade. Em amor ou amizade, só o sentimento, infelizmente, não é suficiente pra manter tudo de pé. Você tem de ceder e a pessoa tem de ceder também. Amizade, amor e qualquer coisa que liga a  alma de duas pessoas exige, no mínimo, convivência e paciência.

Aí você vai pra faculdade e encontra seus novos amigos de infância, sem discriminação de sexo – inclusive literalmente. Você se sente mais adulta porque achou que descobriu finalemente o que quer fazer da sua vida e, no meio de muita gente nova, a empolgação te cega na hora de enxergar que, na vida, ninguém nunca tem certeza do que vai acabar fazendo com ela. Você faz mil amigos homens; e os que são bonitos, fazem você. E faz duas – com sorte -, três amigas que você vai carregar pra sempre. Elas passam pela fase da probreza universitária com você; aquela fase que você vai  à pé ou de ônibus pra festa depois de ter estudado de manhã e passado a tarde no estágio não remunerado. O incrível dessa época é que, mesmo na pobreza, vocês pareciam conhecer todo mundo que precisavam conhecer em São Paulo, pra entrar em qualquer lugar sem precisar da moeda de troca usada pelos outros.

Aí a faculdade acaba e você – mais uma vez na dúvida do que fazer com a própria vida e agora, também, com a carreira que escolheu pra você – resolve mudar de país, largar mão de tanta festa e encontrar o amor. E assim você se enxerga depois de alguns meses, cheia de amor e sem amigos. Sem amigas. Não está completo.

Alguns anos depois, você e sua melhor amiga da faculdade têm o primeiro estranhamento. Você voltou mas as vidas de vocês andaram separadas. Amizade, como amor, precisa de dia a dia, precisa de “Como foi o seu dia?”, precisa de frescurinhas e cuidados pra não estremecer.

Meses de insistência depois, quando você quase conseguiu enfiar a amizade de volta no eixo, quando fez novas amigas de infância pra quem pôde ligar na hora que algum dos seus amigos deu em cima de você e te deixou surtada, ou na hora que sua chefe gritou com você no meio da redação e você correu pro banheiro, sentou na privada e ligou pra ela ao invés do seu namorado porque ela, diferente dele, não ia te mandar engolir o choro e ia te entender. Bem nesse momento então, a vida muda de novo, você muda de país de novo e, mais uma vez, suas amigas de infância de verdade, as de infância da faculdade e as de infância do trabalho ficam pra trás enquando você vai.

Aí você chega aqui, de novo com o amor que sempre precisa de manutenção, mas tendo a difícil tarefa de manter à distância as outras relações da sua vida.

Alguns amores começam de amizades, e alguns amores, terminam em amizade; ou pelo menos é isso que ouço dizer. Mas eu não acredito muito nesse estatuto que estipula regras de boas vizinhanças entre ex-namorados e, tampouco, naquele que estabelece que uma amizade entre homem e mulher – heterossexuais, obviamente – pode ser complemente imune do fator que todo mundo que já teve um grande amigo do outro sexo um belo dia encontra pela frente, a curiosidade.

O fato, e a desculpa pra esse texto sem propósito e tão bagunçado, é que só amizade e só amor, sozinhos, não conseguem suprir tudo o que a gente precisa. Você pode reclamar da melhor amiga pro namorado e pode – e vai – xingar o namorado de tudo o que precisar pra melhor amiga. Mas não, o namorado não pode ousar falar da melhor amiga e a melhor amiga nunca pode entrar muito no calor do momento e acabar xingando seu namorado.

No final, a nossa vida não muda de curso e nem pára de andar em frente pelos desejos de mais ninguém, além dos nossos próprios. E se a gente fez a burrada de ter uma cabeça avoada e um coração cheio de sonhos e vontades de conhecer o mundo, viver um grande amor e fazer grandes loucuras em nome disso, a gente têm que, também, aceitar que muitas vezes é possível perder quem se deixou pra trás.

Feliz das pessoas que nasceram com as cabeças nos lugares e resolveram amar só quem apareceu pela frente, nunca quem estava fora do alcance da vista.

Quanto à mim, meu coração continua por toda parte e minha cabeça não tem nem meios de ser mais bagunçada. Vai ver é por isso que jamais vou saber qual é a sensação de estar completa, sem sentir saudade de absolutamente ninguém.

Rani Ghazzaoui

Ciclo vicioso

24 Jun

E daí? Tá tudo errado mesmo, eu já não sei quantas das minhas decisões foram pensadas e quantas foram só impulso. Ele me diz que não é amor; fala que é medo isso que eu tenho, que eu jamais soube lidar com o fato de que as coisas que eu pintei como perfeitas pro mundo podem simplesmente não darem mais certo.

Mas será que é ele, então, o certo? Será que é isso mesmo e meu problema não é não saber viver sem a companhia dele, mas sim, sem a imagem do que ele representa na minha vida?

Ele casou. Me traiu, me largou e casou. Será por isso que ele diz que é medo? Como se a ferida de anos atrás ainda latejasse igual em mim e, nem por um segundo, eu pudesse confiar completamente em qualquer outra pessoa, mesmo que ela não tenha me traído. O outro casou e a minha vaidade precisa que eu também case logo e, de preferência, que a minha festa seja maior e  muito mais feliz.

E sim, essa história é feita de dois eles: um está aqui e agora, o outro ficou no passado e é responsável por toda a carranca que eu carrego até hoje dentro de mim. Mas o outro ele, o que ficou pra trás, não é mais importante. Pra mim, ele não tem mais nome, não tem mais rosto, não tem mais nem registro de saudade. Eu não lembro de mais nada do jeito dele e não faço idéia do tom de voz que ele tem. Ele ficou no passdo de verdade, com todo o esquecimento que o tempo é capaz de conferir à coisas que foram, mas deixaram de ser. A questão aqui não é o que eu sinto ou senti por ele, mas é o que dele sobrou em mim, a traição.

E nessa história toda, quem se perdeu fui eu. Perdi a capacidade de confiança, a capacidade de amor total. Perdi, até mesmo, a capacidade de enxergar passado como lembranças; passado virou pra mim só fantasmas. Olhando ontem e olhando hoje, com ou sem eles, quem não está mesmo mais dentro de mim sou eu. Pra onde eu fui?

Queria sentar na frente dele um dia, fazer ele tirar os olhos fixos da televisão e dizer: “Lembra de mim? Lembra de como eu era? Independente, jovem, cheia de todas as vontades do mundo dentro de mim. Eu tinha tantos amigos, eu tinha um papel muito mais presente na minha família, eu tinha uma carreira inteira pra ser moldada à minha frente. Lembra? Eu tinha sonhos e eu queria concretizar todos eles. Lembra? Eu não estava nem aí pra você, pro seu passado. O que eu amava era a idéia de você comigo, sem me importar com o que isso representava. Lembra? Pra onde eu fui? Onde foi que eu me perdi tanto de mim que, agora, nesse exato momento, estou perdendo você?”.

E eu sei que esse dia não vai chegar. Se por acaso – ou sorte – eu me reencontrasse numa esquina esquecida da minha esquizofrenia, o medo das respostas seria mais do que a sede das perguntas, eu sei. Você está certo, perdida e paralizada de medo, fica difícil – pra mim –  sair do lugar.

No final das contas, e dessa história, a mão que vai me levantar não é nem sua, nem dele, nem de ninguém mais. A mão vai ser a minha mesma, apoiada no chão que por, algum motivo, eu caí há tanto tempo.

Uma amiga me disse que, fazendo terapia, percebeu que suas crises são cíclicas e eternamente não resolvidas. E eu fiquei pensando comigo que eu descobri isso sobre as minhas crises anos atrás, sem nenhuma precisão de terapeuta.

Mas e daí? Tá tudo errado de novo, ciclicamente, e eu – como quem só sabe se repetir nas tristezas batidas – continuo perdida de mim, procurando o que me falta em você e, obviamente por isso, jamais me encontrando. Repetidamente.

Rani Ghazzaoui

Lobotomia

23 Jun

(data original: Domingo, Maio 02, 2010 )



“She wants to know if I love her, that’s all anyone wants from anyone else, not love itself but the knowledge that love is there, like new batteries in the flashlight in the emergency kit in the hall closet.” – Jonathan Safran Foer, Extremely loud & Incredibly close.

Você olhou pra mim e fez cara de quem já me conhecia. De cima à baixo, como quem faz inspeção num imóvel onde morou quando era criança; móveis diferentes, mas o mesmo cheiro de lugar conhecido. Fazia tantos anos que eu não olhava pra você também, mas a verdade é que eu não senti saudade de você nem por um segundo nos últimos quinhentos anos. Nada.

Saí dali com aquela sensação estranha de ter mergulhado a ponta do dedo num copo de passado e enfiado na boca rápido, descobrindo numa lambida só que algumas coisas quando amargam não voltam a ser doce depois de um período de abstinência. Passei esbarrando por algumas pessoas, fui quase atropelada por alguns carros, as ruas ficaram um pouco tortas de uma hora pra outra e meu equilíbrio que andava tão em dia comigo resolveu falhar.

Esse é o problema de gostar das pessoas. Pessoas fodem sua vida, partem seu coração, comem outras pessoas quando deviam estar só comendo você. Pessoas têm passados de histórias de amor que não foram com você e, no fundo, a gente sempre sabe que a gente também tem o nosso e faz parte do passado comprometedor de alguém. E pior, até onde vale à pena lutar com garras afiadas contra o passado de quem a gente ama, ou esconder com todos os recursos de privacidade o que já aconteceu na nossa própria vida?

O problema do meu ciúme é que ele é tão grande que acaba ficando sem foco. Meu ciúme não tem nome porque eu consigo dar variados nomes à ele todos os dias, em todas as suas ações eu consigo achar alguém que está ali, bem escondidinho no canto do seu cérebro que administra todas as lembranças que foram feitas antes de eu chegar. Meu ciúme é tão imbecil, que eu às vezes penso que se eu abandonar você eu posso finalmente me tornar uma lembrança grossa que também caber (e ainda roubar o lugar de algumas pessoas) nessa parcela de massa incefálica que eu ainda não posso entrar. Se eu fosse passado e não presente, seria eu que ia importunar, não quem estaria sendo importunada.

Daí eu fico inspecionando meu passado de perto todos os dias atrás da moita, que é pra eu me lembrar que eu também tenho um e que, se você resolvesse futucar aqui e ali o tempo todo (como faço eu), você também sentiria ciúme de mim. Mas aí me vem sempre aquela outra pergunta: será que você não sente? Será que enquanto eu durmo você não pega o meu celular e lê todas as minhas mensagens na vontade de achar alguma coisa que explique o porquê eu vigio tão de perto cada um dos seus suspiros mais longos? Ou será que só sou eu mesmo que sou a louca deste relacionamento e não entendo que depois de tanto tempo não resolve mais ter ciúme, ou se acredita no que se tem ou se vai embora e pronto?

Vocês me olharam com caras conhecidas porque, afinal, vocês supunham mesmo me conhecer muito bem. Um beijinho aqui, há anos atrás, algum segredo que naquela época era muito importante, mas que hoje eu nem me lembro mais. Talvez você conheça o nome da minha música preferida e talvez saiba quem é minha melhor amiga e qual é o time do meu pai. Talvez eu tenha um dia dito estar apaixonada por você, talvez eu tenha chorado algumas noites – ou até muitas – porque você me traiu, ou porque me deixou, ou porque não quis me namorar.

E você, amor, você me olha fundo porque conhece o meu bem e o meu mal. Enquanto os outros guardam de mim memórias pequenas, você me reconhece nos meus gestos mais comuns e me enfrenta no meio dos meus devaneios, no meio dos meus ataques de morte, das minhas tentativas de guerra contra todos os demônios que habitam minha cabeça porque ela é sempre cheia de tantas coisas, funcionando muito mais rapido e atribuladamente do que a das pessoas normais. Eu tenho tanto medo de um dia uma mulher normal, com cabelo liso, roupas iguais às de todo mundo e senso de humor medíocre te leve de mim. Porque essas pessoas que são só pessoas – realmente iguais à seus iguais – são normalmente mais fáceis de se conviver. Porque eu sei que você acha a minha loucura bonita e até meio poética, mas eu sei também que você já achou tudo isso muito mais lírico do que acha hoje e que, um dia, pode de verdade cansar de tanto surto.

Eu disse que não senti nada por ele, mas é uma meia verdade, já que não é exatamente uma mentira. Eu senti nada, mas tem dias que eu busco em todos aquilo que você não me dá mais porque já me tem do seu lado há muito tempo. E eles me dão aos montes, mas na hora H eu recuso porque nada do que eles possam me dar vai ser você. E a verdade mais clara de todas as meias que eu tenho dito ao longo desse texto todo é que essas minhas ações repetidas durante tantos anos, nada mais são do que uma bandeira estendida por detrás da trincheira, pedindo trégua e tentando chamar sua atenção.

Na nossa guerra diária de passados, de outros amores, de decisões, de foco, de fica, de fode, de fato, não é a vontade de ganhar de você que me move, mas sim o medo de te perder. A qualquer hora sem aviso, para qualquer uma dessas coisas.

Meu ciúme é tanto que eu acabo olhando muito para o meu passado. E eu sei que sou louca – você me lembra todos os dias e eu também tenho consciência – , mas se eu encontrasse o tão falado gênio da lâmpada hoje, o pedido seria simples e sim, insano: um mundo sem passado, pra mim e pra você.
Rani Ghazzaoui

.::. Bom tirar o pó, não é crianças?
Queria aproveitar e agradecer a todos que me mandam e-mails todos os dias, aos que me adicionam no orkut (eu não adiciono ninguém porque tento manter pros meus amigos, mas alguns de vocês bloqueiam a função de não-amigos deixarem recados e aí eu não consigo nem deixar uma mensagem pra vocês.
Quero que saibam que fico muito feliz e muito honrada de saber que tem gente que se preocupa com as bobagens que eu escrevo.
Beijo gordo e aproveitem o outoninho bom que tá fazendo lá fora. 🙂

Band Aid

23 Jun

(data original: Segunda-feira, Fevereiro 15, 2010)

“Maybe I’ll just fall in love that could solve it all, philosophers say that that’s enough, there surely must be more.” – Minha vontade de casar com Jamie Cullum ainda continua alternando com aquela outra, de casar com Brandon Flowers. O que fazer, meu Deus?

Não é porque meu papel está vazio, sem nenhum pingo de concisão há tanto tempo que o meu coração também está assim, silencioso. O tempo está passando tão rápido por mim, eu fecho os dedos das minhas mão com tanta força, mas o tempo prossegue passando, caindo por entre meus dedos, eu não consigo mais segurar ele aqui.

Tantas meninas eu já fui, arrisco dizer até que já fui muitas mulheres. Minha tristeza sempre rendeu boa poesia, minha verdade sempre serviu de guia pra pessoas que queriam acreditar não estarem tão sozinhas nesse mundo onde os sonhadores são pisados na cabeça, são sempre feitos de bobos. A verdade é que a gente se presta ao papel de bobo quando quer acreditar nas verdades absolutas que ouvimos desde criança sobre a lealdade, a amizade, o esforço, a justiça e sempre, claro, o amor.

Jamie Cullum diz numa música que eu já escutei tanto que posso contar as notas de cabeça, que sempre ouviu dizer que o amor seria capaz de acabar com as outras todas desgraças e insatisfações da vida de alguém, que ele seria capaz de tirar o peso do emprego que não dá prazer, dos amigos que não são leais, da falta de vontade que às vezes dá de levantar da cama num dia cinza. Mas Jamie percebeu, ali pro final da canção, que a resposta não havia de ser tão simples assim. Percebeu que o amor é super valorizado e que, de tanto a gente depositar todo o peso do mundo nas costas dele, na hora que chega acaba não dando conta de tanta cobrança, de tanto desejo acumulado de felicidade esperando uma oportunidade.

Eu tenho amor, hoje eu posso dizer isso de olhos fechados. Mas eu ainda tenho muitos problemas e, hoje, alguns deles são realmente sérios. Eu já vi gente que eu gosto ir embora, já fui embora de gente que me queria por perto, já voltei pra abraçar minha família, já chorei por não poder abraçar meu namorado, eu perdi amigos pro tempo e também, mais grave ainda, perdi amigos pra vida (amigos jovens, cheios dela ainda). Não gosto do meu emprego, não acho que fiz a faculdade certa, fico pairando numa linha sublime de expectativa concentrada de que um dia eu vou finalmente acordar de manhã achando que eu tenho o emprego mais legal do mundo. Eu me cobro felicidade todos os dias porque todos os dias eu vejo tanta tristeza real por aí e acho injusto com o mundo ser eu quem sempre está sofrendo de algum mal. “O seu mal é você mesma”, ele sempre me diz baixinho em tom de quem está tomando conta de mim nas horas em que estou mais desprevenida. Mas a minha vontade é de arrancar as víceras dele pela boca por ele ousar não respeitar o meu espaço lírico, por ele nunca entender o que eu escrevo, por não se importar em entender e julgar que a solução é simplesmente não sofrer, é simplesmente não pensar, o que me irrita é ele achar que a solução é simples, é ele achar que a minha tristeza é só feia, é raza. Me irrita gente que não consegue enxergar além do óbvio da lágrima, gente que não consegue ver o lado bonito da dor (sem nada depressivo camuflado aqui).

O que quase ninguém entende é que, pra mim, doer não significa necessariamente não ser feliz. A melhor coisa do mundo inteiro são aquelas risadas de fazer doer a barriga, de dar cãibra no maxilar. Abraçar gente que a gente quer abraçar, comer comida boa, viajar sem saber onde vai acabar o destino, sem ter data pra voltar. Mas acontece que nenhuma dessas sensações anula o outro lado da moeda. Todo mundo é multissensitivo, todo mundo é capaz de sorrir e de chorar, é capaz de pensar além do que se ouve, é capaz de entender o que sente e de pensar a respeito disso. Acontece que nem todo mundo se interessa em se explorar, em se conhecer, em pensar um pocuo fora da caixinha que deram pra gente colocar ao redor do no nosso julgamento quando a gente ainda era criança. Nem todo mundo – ou quase ninguém – é tão autocrítico como eu sou, nem todo mundo passa dias e noites questionando o porquê é que a vida está passando tão rápido enquanto eu ainda não fiz um terço de tudo aquilo que eu sonhei fazer.

Eu tenho vinte e três, mas eu sufoco imaginando que daqui a um mês vão ser vinte e quatro anos não aproveitados do jeito que eles deveriam. Eu queria correr mais, viver mais, sorrir mais, escrever mais poesia, queria já ter escrito um livro, queria poder viver de amor, de música, de arte, queria não precisar tomar decisões pra sempre agora que eu ainda nem sei onde meu pra sempre vai dar. Queria que minha mãe sempre estivesse perto e pronta pra mim, queria um amor que ultrapassasse os limites dele próprio, amizades que não fossem embora com o tempo. Eu queria ser mãe, queria ser mão pra quem precisa; queria não precisar tanto de coisas que, no fundo, não fazem bem pra mim. Queria que o mundo fosse menor, que as distâncias fossem mais fáceis de ser percorridas pra que eu pudesse estar o tempo todo há dez minutos caminháveis de todo mundo que eu gosto.

Mas hoje, e só hoje, o que eu queria era muito mais simples do que toda essa dúvida eterna que eu carrego como fardo, mesmo às vezes largando em algum cantinho que eu sempre volto depois pra buscar. Hoje, e só hoje, eu queria olhar pra você e enxergar de novo aquele cara por quem eu fui capaz, mesmo que brevemente, de apagar todos os meus pontos de interrogação. Aquele cara que era, no meio de tantas dúvidas, a única certeza; o cara que fazia de mim uma mulher melhor.

O meu coração está barulhento, está machucado, está se sentindo sozinho. E olha como a vida é engraçada, meu amor. Eu sempre chorei as mágoas de um coração que sangrava por estar assim, vazio, oco, sem ninguém. Mas eu nunca poderia supor, nem nos meus sonhos mais delirantes de idealista de um amor que nunca vai existir, que chorar as dores de um coração que dói acompanhado podia ser assim, tão pior.
Rani Ghazzaoui

Assim é a vida. Assim.

23 Jun

(data original: Terça-feira, Outubro 20, 2009)

“But you always hold your head up high cause it’s a long, long, long way down. This town was meant for passing through, but it ain’t nothing new, now go and show them that the world stayed round. But it’s a long, long, long way down” – amando The Killers mais do que nunca e, mais do que nunca, contando os dias pra ver Brandon no Brasil.

Nada do que eu faça, nem de longe, nem de leve, tem a força e nem o poder de me mudar, de me fazer voltar a ser daquele jeito diferente que eu fui, que eu pensava, inclusive, que eu jamais deixaria de ser.

A vontade que me dá de sair correndo pelo mundo, de fechar os olhos e só abrir quando eu sentir o cheiro seguro da felicidade eterna e da liberdade fácil. Ficam me dizendo que pra chegar lá a gente tem mesmo que passar por tudo isso, que tem que sofrer e chorar e doer pra depois ver tudo se encaixar como peças perfeitas, feitas pra acertar a sincronia.

Mas sabe, eu não tenho mais dezoito. Eu não tenho mais dezenove, nem vinte e nem mais vinte e poucos. Os meus vinte agora são mais pra muitos e eu cansei de achar que tudo tem saída porque eu faço parte daquela juventude boa de gente que vai mudar o mundo.O mundo não vai mudar não, e não vai mudar porque nele só tem pessoas vaidosas e mesquinhas, feito eu e você; pessoas que olham por cima dos ombros porque não querem enxergar o outro, mas sim a sua própria bunda.

Tem aquela música que gosto que diz que o amor deve ser a cura pra todos os outros males porque, afinal de contas, as pessoas estão há milênios escrevendo, cantando e profetizando o amor como a cura de tudo. Mas o amor faz mais estrago do que cura. A paixão que consome muito, deixa a gente burro e inconseqüente, faz a gente passar por cima de muita coisa e, muitas vezes, do que realmente importa pra chegar lá no topo da nossa vaidade estúpida, com o nosso ego imenso, gozando na cabeça de todo mundo que serviu de degrau pra nossa escada escrota. Há pessoas que amam o poder mais do que amam as outras pessoas. Como eu disse, nem sempre o amor cura.

Quando você tem os vinte e poucos normalmente você tem, também, aquela sensação de que só gosta de si mesmo e é claro que assim a vida se descomplica mais fácil. Gostar de si mesmo e só de si mesmo é uma delícia, mas a gente estraga achando que amor cura tudo e tem mesmo de tomar cuidado pra não acabar sozinho lá em cima, comemorando a vitória com o vácuo que sobrou dentro do peito. Sabe? É, tem gente que não sabe.

Mas não adianta também se enganar achando que se agarrar ao ideal independente vai ser a saída e que, pra sempre, aquela inconseqüenciazinha gostosa vai ser a saída de tudo. Não é. Não é porque hora mais, hora menos a gente se sente sozinho, porque tem dias que não há nada melhor do que chegar em casa e sentir aquele cheiro de certeza conhecida, sabe? Deitar em qualquer lugar apertado ou espaçoso e respirar o mesmo ar – literalmente – do que aquela pessoa que te conhece por inteiro, com medos, feiúras, neuras, tristezas, sem maquiagem em dia de cabelo ruim e espinha maldita na bochecha.

Amar é uma delícia, não adianta mentir. Ser amado então, nem se fala.

Só que este texto, assim como a minha vida agora, não serve pra falar de amor.

Eu fico tentando enfeitar que é pra ver se eu acho graça de ver que mesmo eu tendo me perdido daquilo que eu sempre soube ser, eu agora sou amada por completo. Mas e o meu amor? Não aquele que eu fiz ser meu e sim o meu mesmo, por mim? Parece mesmo que eu virei adulta demais pra acreditar no meu amor inabalável por mim porque agora eu enxergo com olhos mais sérios as burradas que eu mesma faço e ao invés de gostar de mim, eu só me julgo.

Um texto vago, misturado, raso e meio cretino – já que não faz sentido pra ninguém além de mim – foi tudo o que eu consegui depois de cinco meses de longo jejum. Vai ver é porque é isto, exatamente assim que eu estou agora: vaga, bagunçada, rasa e sim, um pouco cretina.

Conviver demais com gente que não nos acrescenta nada faz isso com a gente porque no mundo real o sonhador é pisoteado em dois minutos. Talvez eu devesse mesmo ter ido estudar letras e artes cênicas, viver de amor lírico, ter uma vida mais modesta e feliz. Mas como qualquer menina idiota de dezessete anos eu me achava muito linda, e inteligente, e especial e amada para me contentar com o riso. Eu queria o sonho. Resultado? Agora eu que agüente passar pelo inferno.

Mas no meio da bagunça e das indagações de ser ou não ser depois que eu, de fato, já sou, uma coisa é certa: se eu tivesse dezessete de novo, eu provavelmente faria tudo igual e escolheria a selva ao sonho porque, no fundo, eu também quero gozar lá de cima na cabeça de todo mundo que pisou na minha pra hoje já estar lá.
Rani Ghazzaoui

Respire

23 Jun

(data original: Quinta-feira, Maio 14, 2009)


“Jealousy, turning saints into the sea, turning through sick lullabies, choking on your alibis. But it’s just the price I pay, destiny is calling me. Open up my eager eyes cause I’m Mr. Brightside.” – The Killers é sempre bom e todo mundo merece, né não?

Tem dias que você para e olha pra si mesmo e a sensação que você tem é de estar perdido na insanidade que você enxerga, mas não controla.

Quando eu te conheci você fazia parte das horas mais preciosas do meu dia, eu largava quem quer que fosse, eu esquecia de compromissos, eu perdia a fome na hora de jantar, eu tomava um banho rápido, eu me vestia com pressa, desligava meu telefone, ignorava a campainha, ficava offline no messenger, eu saía de toda área de alcance porque a única coisa que me importava quando eu conheci você era que você pudesse, então, me alcançar.

O mundo dá tantas voltas engraçadas e, em muitas dessas voltas, a gente não dá risada de quase nada. Eu fico encontrando defeitos no seu passado como meio de estragar nosso futuro, mas eu juro que o ímpeto vem de dentro de mim, mas não é meu. Parece que existe alguma coisa mais forte do que o meu discernimento que me faz procurar escatologias onde não se vê nada de errado, só pra eu acreditar que ainda sei viver sem você em caso eu precise.

Porque por mais que aquele remoto passado parecesse um incrível segredo nosso, todo mundo sabia que eu estava apaixonada. Porque na verdade, a paixão não é uma coisa quieta, ela não consegue falar baixo, gostar devagar, querer de pouquinho em pouquinho. E a minha paixão não era nada diferente das outras paixões, aquelas que você já teve e eu também já conheci mesmo que sem vasculhar muito. A minha paixão por você era cega, surda e louca porque era a primeira – pelo menos daquele jeito maluco – e me arrastava tanto que me arrastou pro outro lado do mundo que eu conhecia e me levou pra um mundo onde a única referencia de tudo que pudesse pedir uma referência era você.

E quando você reclama que nada do que você faz está bom pra mim, não é porque você não seja bom e nós dois sabemos disso. O problema de ser bom é que depois de um tempo precisamos ser ótimos, e depois de ser ótimos viramos incrivelmente inexplicáveis e daí, melhorando sempre mais, uma hora a gente acaba mesmo virando o mundo todo de alguém. Tudo mesmo, absolutamente sem frestas e nem espaço pra mais nada. Quando alguém é tudo o que um outro alguém enxerga, esse outro alguém, então, está a um passo de ficar cego. Ser tudo sufoca, porque ser tudo impede desejos individuais, impede criatividade, impede felicidade por besteirinhas do dia a dia porque não são em todas as horas do dia que o você está lá, junto com a pessoa que te tem como tudo.

No final das contas, quando se tem um tudo, acaba-se ficando meio que sem nada.

Naquela época que o nosso sonho virou realidade, eu, na minha paixão quase que histérica, corri pra você ignorando tudo o que estava mesmo em volta da gente, aceleradíssima na vontade de viver rápido como se eu não pudesse perder nenhum segundo daquilo, era medo de acordar, sabe? E aí eu ignorei o fato de eu ter um passado e de você ter um passado porque eu tinha sede demais do nosso presente que demorou tanto pra acontecer.

Eu esqueci que sonhos não duram pra sempre porque quando um se realiza, a gente já deu conta de sonhar mais três depois do último. Eu esqueci que a gente ia fazer planos e que eu ia ter ciúme até mesmo da idéia de você já ter tido nem que seja um projeto de plano com mais alguém. Planejou de ir até a lanchonete do tio Zézin num sábado em que os seus amigos te deram bolo e não tinha nada de mais interessante pra fazer? Ta aí, não importa, já me deixa louca de ciúme. Só a idéia. Eu odeio as terceiras pessoas e odeio ainda mais quando essas terceiras pessoas existem só na cabeça de quem vê porque, caso elas fossem reais, eu teria desculpa pra fazer o que eu faço, pra ser irracional, pra não ter limites e nem compaixão. Dá vontade de bater em todo mundo, de sair na rua gritando, de chorar minhas dores em voz alta pra fazer eco e pra ver se no vexame eu enxergo o quanto estou ridícula de não acreditar que o seu amor é genuíno e que o passado que eu tanto teimo em trazer à tona já nem passa perto de perturbar você.

Eu fiz tanta besteira na minha vida, e o meu medo de te desapontar é tão grande que eu preciso procurar besteiras na sua vida, pra me desapontar com você e estar mais preparada caso você decida seguir por aí, sem mim.

Eu te amo, sabe? Daquele meu jeito que você reclama, mas eu sei que, no fundo, gosta. Só que o meu amor não é só ternura, muito embora eu tente tão forte. Eu sou uma pessoa difícil, daquelas que sente muita raiva e que não leva a vida assim, tão leve. Porque mesmo que rasgadas, aquelas fotos ainda estão se remontando o tempo todo em algum outro lugar que eu não vejo, mas que meu coração sente. E tem aqueles cheiros que a gente sabe de olhos fechados e me mata a idéia de eu não ter feito parte das suas recordações que te dão aquela nostalgia boa e vem misturada com a vontade de poder voltar no tempo e comer doce deitado no sofá da casa da sua avó.

O que acontece quando a gente ama mais alguém além da gente mesmo, é que por mais seguro se tenha sido na vida, aparece aquela sensação de ter perdido tanta coisa, tanto detalhe e, no fundo, dá um puta medo de não conseguir superar, entender, acompanhar.

Quando eu te conheci você fazia parte das horas mais preciosas do meu dia e eu largava qualquer coisa só pra poder falar com você. Hoje, você ainda faz parte das horas mais preciosas do meu dia, muito embora eu tenha plena consciência que eu desperdiço a maior parte delas desacreditando da beleza, da maravilha e do milagre que é, mesmo depois de tantas tempestades fortíssimas, a verdade absoluta do nosso amor.

Rani Ghazzaoui

Amor aos pedaços

23 Jun

(data original: Sexta-feira, Março 06, 2009)


“When there’s no where else to run, is there room for one more son?” – The Killers é mania muito justificável, não acham?

Um branco, um vazio, um oco, um nada, um furo, um preto, um fundo, um fim, um o quê?

Todo mundo no mundo já teve a sensação de não pertencer, de ter se perdido em alguma parte, de não saber o que vai ser daqui pra frente e de como se resolve os problemas quando a sua cabeça está por todas as partes, menos aqui. E de verdade, foi mesmo fácil entender o quão perdido você está agora e como a vida tem sido tudo aquilo que a gente não queria de uma só vez.

Aquele lençól ficou amassado e sujo, mas eu não tive tempo de resolver isso porque o meu avião ia subir. Eu estava indo embora, estava deixando tudo pra trás, estava deixando as minhas coisas, as minhas caras, as minhas dúvidas dali, os meus papéis amassados, as minhas palavras de começo, o meu travesseiro que me incomodava tanto e que virou o meu melhor abraço no dia que você teve que ir embora. Eu deixei a minha cachorra e o amor que ela carregava pela casa atrás de mim. Eu deixei meu coração com ela porque agora ele sangra todas as vezes que eu penso que tive que deixar ela pra trás. Deixei meu ouvido debaixo daquele criado mudo que tinha na gaveta tudo o que a gente começou a construir juntos e foi interrompido, e é certo que meus olhos ficaram presos no Centenial Park perto daquele laguinho onde vocês dois brincavam todas as tardes enquanto eu meditava embaixo daquela árvore imensa que virou minha melhor amiga. Ficou tudo lá.

Aquelas pessoas, lembra? A gente não falava a mesma língua mas era absurdo o quanto a gente era capaz de se entender. Amor é meio universal mesmo e amizade é mais ainda, aquela coisa absurda de sentir a dor e a saudade do outro e fazer toda força do universo pra tentar fazer aquilo passar. Ninguém que a gente gosta pode sofrer. Ninguém que te faz rir quando você queria a sua mãe, que te leva pro hospital quando você desmaia de manhã por pura estafa, que dirige uma hora e meia pra te fazer sopinha porque você está há uma semana de cama, que dorme com você pra te fazer companhia, que ouve, que fala, que ri e que chora com você, nenhuma dessas pessoas deveria poder ir embora do alcance da vista, nunca.

Quando o mundo muda e a gente fica, a sensação é de não saber qual é o próximo passo, literalmente. Onde apoiar seus pés pra não cair de vez já que não se faz a mais remota idéia de pra onde se está indo? E quando a gente vai sem rumo a gente chega a vários lugares, mas também acaba que não chega a nenhum porque no fim nenhum lugar que possamos chegar é aquele em que queremos estar.

A verdade unânime pra mim é que mudar de casa, de país, de amigos e de estilo de vida é quase como se apaixonar, conquistar alguém e depois ter que desistir, superar aquilo. Porque é muito difícil no começo e você sente tanta saudade de tudo que se esmaga pra caber naquela carapuça que vai ter que vestir por escolha própria e acha que tem de gostar; se puni por sentir saudades, fica mal e não conta pra ninguém porque tem que aproveitar o que está acontecendo. Só que é quando a gente vai embora que a gente percebe que algumas coisas, alguns momentos e algumas pessoas ficaram e não vão voltar e quando você volta pra de onde veio inicialmente, nada lá é mais o mesmo também. Porque a vida andou pra eles também. E, muito embora os ares sejam os mesmos, as coisas mudaram de lugar, as pessoas foram e você perdeu muita coisa e, é fato, às vezes não dá pra acompanhar, às vezes dá preguiça de acompanhar.

Agora me diz, como é que se vive sem todas as coisas? As materiais não porque essas é muito bom de ver, não nego, mas são frias e substituíveis. Quero saber o que se faz quando o seu coração se dividiu entre dois lugares diferentes, quando seu bem-querer passou a ser de várias pessoas que não podem estar todas no mesmo lugar do mundo ao mesmo tempo, que a casa da sua mãe deixou de ser a sua casa e que a sua casa não existe mais? Pra onde é que se corre quando os objetivos de uma vida inteira já não fazem assim tanto sentido porque você percebe que seus objetivos eram baseados numa noção de felicidade geral, mas agora você notou que no fundo ninguém é mesmo assim tão feliz, ou tão preocupado e que as pessoas vão simplesmente vivendo sem perceber o leque de possibilidades de descobertas e felicidades que esperam por elas fora do que se é esperado?

É por falta de coragem de analisar à si próprio, talvez, que as pessoas se sintam tão à vontade analisando o comportamento dos outros, o alheio, aquilo que não lhes pertence e nem vai. E é por isso que eu não me importo de todos acharem que eu ando esquisita, ou distante ou que o meu entusiasmo não é assim tão grande pra coisas que deveriam ser. Por mais mesquinho que seja não dividir isso com ninguém, é o melhor que se faz já que as pessoas não vão mesmo compreender.

A verdade é que eu estou com saudade de um tempo que passou, de um lugar que não existe mais, de pessoas que vivem só dentro de mim. A verdade é que de agora em diante vai ser sempre um pouco assim e não é que eu esteja infeliz, é só que agora a minha felicidade se espalhou por aí e ficou, com certeza, muito mais difícil reuni-la inteira num lugar só.
Rani Ghazzaoui