Imagi-Ana-ria

17 Jun

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Ela me inspira, já tem anos. Quando meu eu lírico se cala, eu a leio então, calada. As palavras dela me tocam, me excitam, me deixam com raiva por não ter sido eu que as escrevi. Ela é linda, esbelta, sorrisão daqui até aqui. Ela tem irmãs que eu nunca tive e desse dom que dividimos parece que ela levou uma metade maior do que a minha. Levou três quartos.

Sempre gostei de nome composto. Gente de nome composto nos meus olhos de menina eram complexidade. Os pais não conseguiram se decider entre um nome ou outro, então deram dois. Aquela pessoa, mesmo sem ter pedido, nasceu com direito de ser duas, de poder duas vezes, de trocar a personalidade quando bem entendesse. Maria, Cláudia, Fernanda, Carolina, Paula, Lúcia, Clara, Júlia. Eram tantas as Anas. Ela era todas.

Tive um amigo que era pintor. As coisas mais lindas ele desenhava. Ele me ensinou sobre a vida, falamos tanto sobre amor, ele me entendia. Um dia, no meio de um papo cabeça que durou a madrugada toda, ele me prometeu pintar minhas palavras com suas tintas, seus muitos pincéis, seu talento. Mas meu amigo também conhecia Ana e ela, como pra mim, era musa dele. E ele só sabia pintar com ela, pra ela, sobre ela. Nem raiva eu tinha. Ela merecia, ela era luz enquanto eu e ele só sabíamos viver de sombra.

Fico imaginando como são as Anas dos meus amigos escritores, músicos, artistas, atores. O que elas comem, como se vestem, sobre o que conversam. Quais livros estão na estante de sua Ana? Onde ela estudou, o que ela gosta de fazer aos Domingos? Sua Ana tem quantos anos, quantas tatuagens, quantos amigos? Você é amigo da sua Ana?

A gente se conheceu por uma amiga em comum. Conversamos por horas, trocamos contos das nossas vidas, trocamos figurinha sobre o que faz de alguém um escritor sensacional, único. Não viramos amigas de infância, nunca mais nos vimos, inclusive. Trocamos endereços de blog e seguimos com as nossas vidas. Ana não é minha amiga, não é minha colega, não é real. Ana virou o ideal de tudo o que eu queria ser na minha cabeça, virou uma memória de todas as coisas que ela foi naquela noite de Outono quinze anos atrás. Ela era profunda e descontraída, eram bem ajustada e estranha, era amiga de todo mundo e ao mesmo tempo ninguém conseguia se aproximar demais dela. Ela era exata.

E eu não sou; nunca fui. Eu sempre fui caos e escuridão, desejo de coisas que ninguém deseja, bagunça, tremedeira, fervor. Eu sempre fui a esfinge que desistiram de decifrar, a equação que não fazia sentido porque eu não sei resolver nada que passe de regra de três.

Ana era a meu oposto, era o meu nome composto. Aderi à Ana como quem gruda no brinquedo novo que ganhou no Natal. Ela me completava e me dava o poder de ser quem eu queria, mas não era. Ela lia todos os livros que empoeiravam na minha estante, sabia de cor declamar as poesias que eu nunca entendi. Escolhia pra ela os amores mais profundos, sentava na varanda lendo jornal no Domingo, discutindo Foucault e cinema mudo. Ana era claridade, eu complexidade.

Hoje de manhã li que Ana estava com frio e pensei em como suas palavras sempre aqueceram a minha vida. E daí fiquei pensando que talvez eu também seja a Ana de alguém, alguém que hoje também sentiu frio e achou abrigo aqui, nessa parte do meu cérebro que não para de falar por um minuto.

Nesse mundo tão cheio de gente que passa, há pessoas que ficam, mesmo quando nunca estiveram. Isso, pra mim, é beleza, é leveza, é literatura.

Obrigada Ana, por ser infinita.

Rani Ghazzaoui

 

Meu Bill (e seu kill)

20 Jan

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Eu não sei escrever com a cabeça, eu só sei escrever com as vísceras. E, pra isso, elas têm que estar em carne viva, sangrando.

Eu não sei escrever histórias em que os mocinhos e mocinhas têm hora pra tudo; começo, meio e fim. Minhas histórias também não têm vilões, porque eu custo a acreditar que a maldade escolhe um lugar apenas pra se aconchegar certeira. Maldade, pra mim, é a absoluta certeza de que se é bom.

Eu não sei me explicar quando tenho vontade. E as minhas vontades se empilham no chão do meu quarto escuro. Bagunça sentimental é minha decoração preferida e a minha coleção de center pieces dura já uma vida inteira.

Ele olhou pra mim e eu sabia que eu estava ferrada. Aqueles olhos, o formato, a cor, a intensidade. Parecia que ele estava enxergando dentro de mim e eu fiquei envergonhada. Foram dias e dias de vontade acumulada, de desejo que não tem pra onde ir. Imaginava as mãos dele, os braços, os abraços, os pelos, o cabelo, as pernas contorcidas. Imagina a desgraça. Mas a culpa não era dele, e eu sabia. A culpa também não era minha porque eu precisava tanto daquela coisa que, por mais que eu tentasse mudar a dinâmica, vinha sempre dos outros e nunca de mim. Eu precisava dele porque ele representava o que eu sabia fazer de melhor na vida.

Desejar é uma arte e ele sabia, eu acho. Ele sentia. Sentia a tremedeira nas pernas que eu também sentia toda vez que esbarrava com ele no corredor. Eletricidade. A gente corria. Besteira adolescente, eu pensava. Caralho, como era bom me sentir quinze de novo, mesmo que por duas horas num mundo de mentira. Quando eu era mais nova, não sabia escrever sem palavrão. Profanidades, pra minha eu adolescente, eram como cerejas no bolo: alegravam os olhos, me faziam mais alta. Ele me fez xingar de novo. Fazia tanto tempo que eu só vivia mantendo a compostura.

Sonhei todos os sonhos do mundo com ele e acordei em todas as madrugadas seguintes sedenta e atordoada. Que calor era aquele dentro de mim?

Eu não sei escrever com a cabeça, eu só sei escrever com as vísceras. E, pra isso, elas têm que estar em carne viva, sangrando.

Ele morreu ali, naquele sofá. Fiquei disléxica e matei tudo o que podíamos ter sido com as minhas palavras de quem não demora. Ele queria mais, eu queria mais. Chegamos na hora errada. Nunca entendi ao certo, mas prolixidade não garante amor e o relógio da vida parece nunca emparelhar as horas com os relógios de quem queremos permanência.

E eu sangrei. Muito, por meses, uma hemorragia de coisas que precisavam ser ditas mas nunca foram. Uma cena do Tarantino num dia ruim.

Eu abri uma fresta da janela pra ele me enxergar e fiquei esperando ele chutar a porta. Ele não chutou. Eu não abri. Estamos aonde estávamos, nada mudou.

Eu não sei como aconteceu, mas ele chegou e ele existiu. Na minha eterna necessidade de me sentir completa, ele me mostrou que dois pedaços não fazem um inteiro e que a nossa verdade pode sempre ser uma mentira muito bem contada.

Voltei a viver a vida. Minha porta continua fechada, minha fresta eternamente aberta.

Rani Ghazzaoui

Sobre os trinta: A astrologia, a loucura e a sabedoria.

16 Nov

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Enlouqueci.

Sei, completamente sã eu nunca fui, mas Saturno está aqui, vinte nove anos depois, e eu enlouqueci de vez.

Joguei roupas, livros, filmes do coração, certezas de uma vida inteira, amizades, inimizades e desejos pela janela. Não quero mais. A profissão, a grana, o status, a baboseira, o amor perfeito, a perfeição em si, a trivialidade, os modismos, as conveniências, os relacionamentos que não trazem nada. Surtei.

Minha mãe me diz há anos, muitos mesmo, que eu preciso dominar as minhas emoções, que a vida é muito curta pra deixar que os nossos sentimentos decidam todas as direções dela. Pela primeira vez eu entendi. Saturno chegou avassaladora – Saturno, com certeza, é mulher e das doidas. Chegou e chutou meu barraco, desarrumou tudo que eu passei quase trinta anos moldando, achando que era o que eu precisava exatamente pra ser feliz. A crise dos trinta não te deixa orgulhosa por ter feito tanta coisa incrível, pelo contrário, ela te dá uma gigante pulga atrás da orelha que vive te perguntando se essas escolhas foram as certas, se elas importaram, se o seu precioso tempo nessa terra está sendo bem utilizado. E, honestamente, nunca está.

Pela primeira vez na vida, eu disse não sem o menor medo de magoar. Foda-se a mágoa, esse sentimento sem sentido; mágoa não serve pra nada. Dizer não é liberdade e eu precisava me libertar. A gente faz da vida uma prisão; decide tão cedo o que é que a gente gosta e o que é que não; o que a gente quer, o que não quer nem ferrando. Os vinte inteiros calculando e espalhando tanta certeza por aí, formando as nossas opiniões pra vida toda. Cansei de abolutismos. Cansei de ter certeza. Cansei de mim, dessa carapuça que serviu há dez anos atrás e que eu continuei arrastando com o meu corpo moído mesmo quando ela já não me cabia mais.

Nós fazemos isso. A gente se obriga a ser quem a gente achou que deveria: “Quando eu tinha vinte anos eu tinha certeza que ia ser casada, com filhos e muito bem sucedida aos trinta e dois”. Aí, agora, trinte e dois é logo ali e os seus sonhos juvenis nunca pareceram tão distantes. Ao seu redor, a vida de todo mundo parece andar pra frente, cumprindo as metas, fazendo check ins infinitos no Facebook da vida perfeita.

Que preguiça.

Tanta, mas tanta mesmo que resolvi parar com tudo que, pra mim, já não fazia sentido algum. Ressetar. Começar de novo. Me entender no agora.

Saí do meu emprego, me desfiz de amigos que já não eram isso há tempos, voltei pro teatro e escrevi esse texto em primeira pessoa. Porque, pois bem, se um terço da minha vida já passou, nada mais justo do eu que finalmente perceber que nada do que importava muito aos vinte, importa de verdade no contexto geral da vida. Até porque se a vida, com sorte, dura 90 anos, eu já gastei o meu primeiro terço me preocupando demais com coisas que não tem solução, então seria burrice prosseguir na mesma pegada.

Eu me reencontrei na minha loucura, mais calejada, mais sussa, mais adulta; devagar as coisas começaram a fazer sentido, e envelhecer foi deixando de ser assustador e eu percebi que idade é liberdade. E liberdade é uma delícia.

Em suma: Vem trinta! Eu com certeza não tô pronta, mas também não tô nem aí.

Rani Ghazzaoui

Futuro

28 Jan

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A noite estava escura. Ela, vazia. Fazia tempo que não conseguia colocar pra fora a bola de pelo presa dentro do peito. E doía. Fazia calor lá fora mas dentro dela tudo congelou. Era como se tivesse visto um fantasma. Acontece que parado ali, naquele segundo onde os olhos deles se cruzaram depois de tantos anos, ele já não era quem tinha sido pra ela, era outro. Mais maduro, mais gordinho, mais trivial. Mais estranho. Tanto que a fez questionar de onde todo aquele passado aconteceu. Onde estavam eles quando estiveram juntos? Quem eram mesmo aquelas pessoas? Será que em algum universo paralelo, onde o tempo correu em outras direções, eles ainda existiam? O segundo mais longo de sua vida. Lembrou o porquê passou com ele tantos anos. Perto dele, tão normal, ela se sentia única. Ele a olhava de longe, tinha cuidado, apreço, admiração. Pra ele – e talvez só pra ele – ela foi.

Ela não era louca nem sã. Não fazia parte de nenhum grupo específico, de nenhum clã. Tinha muitos amigos – ou teve muitos amigos -, ia à muitas festas – ou foi à muitas festas -, lia muitos livros – ou fingia quando na verdade era mesmo viciada em TV. Ela estava beirando uma idade onde a vontade de se transformar tinha se transformado numa quase certeza de que talvez já não desse mais tempo. Estava em crise. Estava trinta.

Ficou se olhando no espelho por horas. Viu ruguingas que antes nunca, viu seus olhos um pouco mais fundos, seus seios mais fartos, meio flácidos. Celulite. Daí começou a pensar na sua vida até agora: Fiz tudo o que queria? Estou onde imaginei? Sou quem eu achava? Quem sou eu mesmo? A resposta era apenas uma: não sou. Pensava, “Tenho muitas qualidades, mas não sou.” E não era. Ao longo da vida teve muitos amigos do peito; nunca lhe faltou conselho para dar ou ombro onde podia chorar. Mas também nunca lhe sobrou turma, gente com quem ela, em grupo, podia se identificar. Não conseguia entender como na disfuncionalidade de um grupo de mais de três pessoas podia-se surgir amizade verdade. Era intensa. Orgia sentimental não lhe interessava.

A vida se transforma a cada dia; às vezes as pessoas que você conhecia mudam tanto que você não as reconhece, noutras você simplesmente percebe que nunca as conheceu realmente. E enquanto ela andava na direção oposta, os olhos deles se cruzaram por um segundo. E por um segundo eles se acharam de novo antes de se perderem pra sempre, outra vez. Dividir a vida com alguém por muito tempo e ter a sensação de completa desconexão anos depois fazia com que ela se perguntasse se dividir a vida com alguém fizesse mesmo qualquer sentido.

Na escola, status era ter peito grande. No colegial, pai rico ou namorado bonito. Na faculdade, algum talento (não precisava ser muito). No trabalho, sarcasmo e sangue de barata. Na vida, mais difícil de estabelecer, ela achava que era preciso ter leveza – coisa que, pra ela, parecia um sonho além do alcance. A coisa mais difícil nessa vida é aceitar que a felicidade é efêmera e recorrente, e não resultado de uma euforia constante. A coisa mais difícil nessa vida é saber disso e, ainda assim, ser feliz.

No começo de cada ano, enquanto todo mundo a sua volta parecia estar achando novas energias pra acreditar em mentiras antigas, ela sempre se via estancada. Achava difícil aceitar que uma meia noite era capaz de mudar trinta anos de decisões razoáveis. Ficava aflita, ansiosa, chateada. Não era mais um ano, era menos um. Menos um que ela podia ter usado pra fazer o que sempre quis, ser quem sempre (achou que) foi, provar que não estava aqui à toa. Ela era alguém dentro de si mesma, e queria provar. Ela estava lá. Alguém precisava enxergar que ela estava ali dentro, vento tudo, com idéias geniais, piadas incríveis, sabedoria de sobra. Não se encaixava com as meninas bonitas demais porque lhe faltava superficialidade; com as intelectuais demais, lhe sobrava humanidade óbvia.

Ia morrendo, sentia. Teve aquela chance de fazer do amor a coisa que faria direito na vida, mas perdeu. Todas as outras coisas foram meio certas, razoavelmente sinceras, quase lá. Viu no amor dele a vantagem de ter começado como a pessoa que amava menos, mas como tudo em sua vida até agora, perdeu a vantagem no minuto em que achou que poderia ser cem por cento ela mesma em sua companhia. Ninguém é cem por cento caos sem levar junto quem está por perto pra baixo. E ela era puro abismo.

O problema de cair junto é que o buraco às vezes é tão fundo que vocês se perdem; noutras vezes é tão raso que só cabe um.

O ano começou e ela fez trinta. Achou que sua vida estaria diferente de quando o ano começou há cinco anos atrás, nos 25. Mas ela sabia que números eram mera ilusão. Sabia que a verdade sobre a vida não estava em aniversários, em datas comemorativas ou na televisão. Ano novo e aniversário sempre se misturaram já que um vinha um dia depois do outro e, diferente da maioria das pessoas, ela não tinha a chance de acreditar no final de um ciclo imaginário com a possibilidade de renovação duas vezes por ano. Tinha que se renovar ali mesmo: sete ondinhas, parabéns, feliz ano novo, flores com cheiro de morte. Sempre pensou em morte no dia do seu aniversário enquanto andava em meio às rosas rejeitadas pela rainha do mar.

E agora eles estão aqui. Ambos, o ano novo e os trinta. Agora ela deveria entender, deveria estar mais de acordo com a sua cabeça que pensa mais do que é saudável. Agora ela poderia, finalmente, fazer planos pro futuro, planos pro amor – especialmente por si mesma. Todo começo de ano era a mesma coisa pra ela porque ela queria acreditar que o ano perdido não importava tanto quando a sua vontade de futuro. Tinha uma chance. Mais uma vez. “Deste ano não passa, vou ter um futuro feliz.”

Esquecia que na vida só existe passado e presente. O futuro era como a felicidade: nada mais do que uma idéia.

Rani Ghazzaoui

Sobre a humanidade, a similaridade e a falta de vontade.

1 May

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Tudo no mundo muda. O tempo todo, mesmo quando cismamos em viver aquela ilusão que aquece o coração por um tempo (não por muito, mas aquece), de que a vida finalmente parou no “futuro”, naquele momento bom que tanto desejamos chegar, conseguir, conquistar; o futuro justifica todas as dores e desamores do presente, mas a verdade é que o futuro não existe, só o que existe no mundo – como conseguimos conhecê-lo – é o agora. O futuro não importa.

Eu me casei com uma pessoa completamente diferente de mim. Ele acredita na vida, na felicidade e , pasmem, até no ser humano. Não vou mentir, é exaustivo fingir que eu me preocupo tanto com a tranquilidade, e com a normalidade, e com toda a formalidade do mundo quanto ele, ou o quanto ele gostaria que eu me preocupasse. Ele me disse outro dia: “Ser como você é, é estar em guerra com o mundo e com si mesmo constantemente”. E, embora eu saiba que o comentário, pra ele, foi negativo, pra mim foi um adjetivo positivo. Adjetive-me de mutação e eu vou gritar o hino de Raul como se não houvesse amanhã, inclusive, porque como já disse antes, o amanhã não existe.

Se estou cansada? Sim, sempre. Uma cabeça barulhenta tira da vida de uma pessoa muitas coisas que eu acredito serem importantes. Gente conformada ou conformista nunca sofre de ansiedade. Ansiedade é a doença dos criativos, dos desinibidos, dos causadores de causo, dos loucos. Mas acontece que há anos eu desisti de buscar sanidade porque, pra mim, linearidade é tão apetitosa quanto um sanduíche de cocô. Equilíbrio ajuda a respirar, mas não enxergar o barulho à sua volta faz com que a sua existência como ser pensante seja diminuída à quase nada. E se era pra ser árvore, pra que então estou aqui lidando com gente que não sabe a diferença entre religião e alienação? De opinião e de imposição? De homossexualidade e escolha? De guerra e de realidade? Pra que, meu Deus, se nasci pra ser planta e fazer fotossíntese, estou eu aqui, correndo na esteira dessa vida pra queimar a única coisa que realmente é prazeroza nesse cazzo (chocolate, claro), e passando cremes caros nas rugas que tentamos esconder porque a nossa sociedade acha sabedoria desimportante, mas se sua bunda for dura com cinquenta anos você venceu na vida?

Se estou cansada? É claro que estou cansada, porra, viver no meio de gente alienada, tapada, chata e que passa a vida planejando o casamento perfeito e a casa de cerquinhas brancas com o namoradinho de colégio é mais boçalidade do que o meu cérebro concordou em aguentar pra viver em sociedade. E a nossa, eu te conto, tá falida.

Às vezes a ansiedade não te deixa respirar direito, ou comer direito, ou dormir direito, ou transar direito ou ser você direito, e são nessas horas que eu gostaria do fundo da minha alma escura conseguir sentar a minha bunda cansada no meu tapetinho de yoga e meditar por cinco minutos que fossem. Meditar é privilégio de quem descobriu onde apertar o botão do foda-se até o fundo, e o meu emperra no meio, sempre tem alguma coisa que me fode antes de eu conseguir ligar o foda-se pra ela primeiro.

Eu, que nasci escandalosa e eloquente, eu, que fui sempre a criança que achava idiota conversar com outras crianças, eu, que era a adolescente que achava que beber era idiota e querer ficar loucão era idiota e querer ser igual à todos os seus amigos para ser popular era idiota, eu, que não entendo gente que só funciona em grupos, essa disformidade que é se justificar como indivíduo somente quando há um coletivo que te explique, eu, sozinha, me vejo colocada nessa prisão moral que é viver num país que parou no tempo. E toda manhã enquanto eu tomo meu café, tenho que ver fotos grotescas de uma realeza ativa em pleno século 21 estampadas no meu jornal. A plebe assiste encantada e muda, as bocas cheias de salsicha, e bacon, e conformidade. Eu não quero me conformar, porque no dia em que eu acreditar que isso é tudo, que a vida é isso aqui, que não tem mais nada pra contestar, pra reclamar, pra discordar, nesse dia cinza com nuvens britânicas, nesse dia frio com ventos do mar do Norte, nesse dia chato com humor amargo de quem nasceu na terra que a natureza abençoou com o seu dia de prisão de ventre, esse vai ser o exato dia em que vocês poderão anunciar, eu morri.

Tudo no mundo muda, eu disse lá no começo. O problema não é o mundo, porque ele gira, e na natureza, na bioenergia, na filosofia e no espiritualismo tudo está em constante mudança. Nada fica estático. A porra do problema é a antropologia. É o ser humano que só consegue aguentar essa vida de incertezas quando finge que está no controle, que tem um plano, que sabe o que está fazendo. A gente não sabe de nada, nem da metade do nada a gente sabe.

Eu que nasci com preguiça de todo mundo, percebo que a cada ano que passa só fica pior. Vocês, seres humanos enquadrados, não me convém, não me apetecem, não me entretém. A vida tá tão chata que até pra amar outra pessoa tem burocracia: se vocês partilham do mesmo tipo de genitália então, afe.

Tô com preguiça. Tô sem saco. Queria menos extremismos e mais eloqüência. Queria menos casamentos por comodidade e mais crianças sendo educadas pra pensarem por si mesmas. Queria mais Hilda Hilst e menos Paulo Coelho. Queria meditar, mas não consegui e vim aqui escrever este texto cheio de inconformidade. Queria poder ter nascido com o direito de viver pelo simples fato de, mas nasci num mundo capitalista que nos faz escravos do dinheiro até quando já somos muito velhos pra aproveitar qualquer coisa dessa vida.

Queria que fosse Sexta mais ainda é Quinta e eu tenho que voltar a trabalhar.

Rani Ghazzaoui

Sofrer ou sorrir?

14 Jan

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Já dizia a minha mãe “De pensar morreu o burro”, mas por ser burra, inclusive, eu nunca dei ouvidos e continuei pensando muito, sobre tudo, a toda hora, sem descanso pra cabeça que maquina planos mirabolantes para coisas que a vida muito provavelmente nem vai me pedir uma posição a respeito.

Você é tão diferente de mim. Se faz chuva, se faz sol, se há seca, ou fome, ou vontade não saciada, não importa, nada parece atrapalhar a sua serenidade, o seu contentamento com a vida, a sua alegria tão sincera que chega a ser irritante, incompreensível. Mais incompreensível, inclusive, é a felicidade que eu sinto, só por saber que você é tão feliz, e a tristeza que me dá quando, sem perceber, eu esfrego a minha tristeza no seu sorriso, e ele fica sem aparecer por alguns dias e nossas escuridões finalmente se encontram, sinuosas e assustadoramente simétricas.

Eu fico aqui mentindo pra mim mesma, mentindo pra você, te dizendo que a sua felicidade simples faz de você alguém desinteressante, bobo. Fico aqui falando a toda hora, me fazendo ser tão importante, falo tanto das minhas qualidades nessa tentativa vencida de justificar a minha falta de amor pelas coisas, a minha intensa dor  que me consome desde o dia que eu pude entender o que é dor, esse oco dentro do meu peito que não me deixa completar a minha existência porque eu tenho tanta sede de controlar tudo, tanta vontade de perfeição, tanta mania de nunca estar assim como você, simplesmente satisfeito por estar aqui.

Mas a minha absoluta certeza de mim mesma é mentira, não me dê ouvidos, não se engane.

Os criativos esquizofrênicos da nossa geração fizeram porque fizeram e o resultado está aí, a ansiedade foi mesmo glamurizada. Woody Allen venceu.

E foi quando eu vi que a vida era feita de escolhas, que percebi quais eram as minhas: Ser fútil ou intelectual? Marombada ou anoréxica? De direita ou de esquerda? Ser vegan ou ser blogueira de moda? Yogui ou hard core? Fazer meditação ou alimentar a gastrite com ódio, vinganças e frituras deliciosas? Ser classe média com orgulho (“Born and raised, yo”) ou defender o comunismo maciço que dorme sereno na parte mais espaçosa do meu coração?

Pra todos os meus dilemas sempre existiu uma única resposta constante: decidi ser ansiosa. Decidi pensar sobre tudo o tempo inteiro, mudar de idéia como mudam as estações do ano num mesmo dia em São Paulo, decidi que não importa o quanto eu sofra no processo, o intuito dessa vida não é ser feliz porra nenhuma, mas sim entender porque cazzo é que fomos colocados nessa bola azul tão bonita, e fomos dados todas as ferramentas para sobrevivermos em harmonia e, mesmo assim, vivemos em descontentamento, vazios, em guerra, em desarmonia, ansiosamente buscando por respostas pra perguntas que fomos nós mesmos – os gênios – que inventaram.

Você me inspira, e eu tenho vergonha de admitir que talvez eu não seja assim, tão complexa como o meu ego gostaria que eu fosse e que, pela primeira vez na minha vida, alguma coisa realmente faz sentido.

E a sua simplicidade é a maior beleza que meus olhos já viram neste planeta; ela é mais mágica do que adormecer ao sol morno deitada na areia fofa da minha praia preferida, e é mais real do que todas as minhas tentativas de explicar em palavras qualquer uma das minhas quatrocentas mil emoções que eu sinto repetidamente todos os dias da minha vida, desde que eu nasci.

Você é real. Sua vida é real. Seus problemas são reais. Sua existência é real. E você é feliz, e pronto.

E você me diz todas as noites baixinho, “Só quem precisa te aceitar é você.”, e eu fico pensando em como eu trocaria todas as minhas glamurosas esquizofrenias só pra ser um pouco mais parecida com você, assim, simplesmente feliz.

Enquanto eu tento preencher os buracos da minha alma com toda essa baboseira, com toda essa literatura, com todo esse cinema europeu e todas essas pessoas que são assim, tão loucas, ansiosas, irônicas e depressivas como eu, você está aí, sempre sorrindo.

Eu passo todo o meu tempo julgando a sua serenidade, tão preocupada com os porquês, e a vida continua passando por mim. E a ironia maior de todas é que a burra aqui fui sempre eu mesma. Mesmo.

Rani Ghazzaoui

Não era dele

30 Oct

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Antes dele, ela existia. Existia diferente, existia mais doce. Ele foi embora há tanto tempo que seu rosto já não tinha mais formato, sua voz não lembrava mais nenhum som e sua verdade já não fazia parte nenhuma da vida dela. Ela se libertou daquilo tudo, daquele passado, se libertou dele. Depois de anos, depois de tanta coisa errada que deixou que ele fizesse com ela. Mas mesmo assim, mesmo sendo póstumo, mesmo sendo indolor há tanto tempo, mesmo sendo, inclusive, extremamente desimportante agora, o coração dela mudou inteiro por dentro, ficou mais escuro, mais amargo e mais sujo por conta da falta de amor que ela sentiu por todos os anos que precisava ter sido amada por ele.

No fundo ela sabia que, à essa altura, já não era nem mais justo colocar toda a culpa nele. Os anos passaram e a memória dele sumiu, o que sobrou foi o fantasma que agora vive dentro dela, o fantasma que se alimenta das suas inseguranças plantadas e faz com que ela guarde com todos os dedos, e unhas e venenos seus sentimentos pra que ninguém possa mais uma vez usá-los contra ela. Os resquícios ficaram não porque ele ainda fazia parte dela, eles estavam ali porque, é verdade, ela mudou pra sempre.

E toda vez que ela tentava se lembrar de como era enxergar o mundo com olhos mais infantis – aqueles que esperam tudo do mundo, tudo das coisas, tudo de qualquer pessoa porque, de verdade, acreditam no bem – ela já não conseguia; era impossível não jogar a culpa diretamente pra ele, o grande monstro dentro do seu armário chamado passado, impossível não torcer o seu nome dentro da boca, porque tinha jurado nunca mais o repetir, prometido a si mesma que nunca mais daria a ele o prazer de fazer parte da vida dela, dos seus pensamentos, do seu amor e nem da sua raiva. A única grande certeza é que dela ele já não merecia mais nada, nunca.

Todo dia então ela olhava seu rosto mais velho no espelho. Examinava cada linha, cada traço, cada resquício de familiaridade, de lembrança, de reconciliação do seu gesto com seu sentir. Fisicamente quase nada mudou de lá pra cá, sua genética tinha sempre sido delicada com ela, desde pequena, e os anos iam se empilhando levemente em seu rosto que ainda tinha, fisicamente, a capacidade de se contorcer à cada emoção. Mas quando ela olhava fundo, se sentia como se não houvesse ninguém em casa, parecia que, há tempos, tivesse fugido de si mesma e na frente daquele espelho só ficou a carcaça, aquele corpo vazio que imita uma vida que um dia ela tinha sonhado ter.

Amores vieram depois dele, mas ela nunca conseguiu senti-los. Não de verdade, não como se deve.

Toda vez que ela tinha um pesadelo era o rosto dele, roubando dela tudo o que ela sempre supôs ser seu. E a cada relacionamento que ela começava, tentando cantar o mantra de mentiras em sua cabeça de que, dessa vez daria certo, outra parte do seu coração apodrecia, virava enxofre, fedia.

Ela passou tantos anos de sua vida colocando todas as forças do seu amor num amor errado, tantos anos desejando ser amada como ela amava, ser completa junto, entendida, paparicada, desafiada, desafinada, enlouquecida, preenchida e louca de amor, de tesão, de paixão. Mas a paixão que ela viveu, aquele amor que hoje ela conta como sendo o divisor de águas da sua vida emocional, só aconteceu na cabeça dela. E agora quando ela tenta fingir acreditar que está se dando outra chance, ela sabe bem lá no fundo, que toda vez que ela entra agora, ela já entra carregando a derrota, ela passou a se sentir tão mal por si mesma que, antes de tentar acreditar, ela já desistiu.

Ele poderia ser qualquer um. Na verdade, ele foi mesmo qualquer um, um amor barato, bandido, esquecido na quinquilharia que vira aquele espaço do cérebro onde ex namorados, ex amigos e ex chefes se misturam nas mesmas gavetas, empoeirados. O problema dela era guardar tudo, guardar por tanto tempo. O problema era analisar com a lupa tentando achar a solução de um problema que na verdade eram muitos e a resposta era simples.

E ainda que ela encontrasse um amor que desse a ela todas as coisas com as quais ela sempre sonhou, sua vida seria triste. Não porque aquele cara, o mané, não soube a amar direito, mas porque não merece felicidade quem dá de presente a outra pessoa a sua habilidade de se fazer feliz. Ela achava que ela só existia antes dele, mas o que existiu antes, de verdade, foi um grande vazio que precisava ser ocupado por alguém para levar a culpa por ela nunca ter conseguido se amar, se aceitar, se moldar em qualquer formato que ela decidisse precisar ser.

E um dia quem sabe o amor poderia sim ser o líquido que preencheria tudo, mas só quando a jorrada viesse de dentro dela.

Rani Ghazzaoui